Esta página vai
debruçar-se mais sobre a escravatura que foi praticada nas
ex-colónias (ex-Províncias Ultramarinas) portuguesas já que este
tema é muito complexo para ser tratado de um modo exaustivo, e
global, numa só página. A vergonha do Triângulo da Escravatura:
É necessário
repor esta verdade histórica: Não foram os Portugueses, nem outros "europeus", nem os árabes muçulmanos, que
inventaram a escravatura em África, em geral, e muito menos em
Moçambique. Em África, milhares de anos antes de qualquer europeu, ou árabe
muçulmano, lá ter posto os pés, já o negócio de escravos florescia não
só no norte (Marrocos,
Argélia, Tunísia, Egipto, Somália, Etiópia, etc ) como no centro e no
sul, sobretudo entre o Senegal e o Norte de Angola, criado por régulos e chefes
nativos, com os seus
negreiros e contratadores, sendo os escravos normalmente obtidos através
de guerras étnicas, assaltos a clãs vizinhos ou como punição por
crimes de que eram, por vezes falsamente acusados de ter cometido. Inicialmente Moçambique tinha
a capital na lha de Moçambique, um centro importante
cultural e de comércio, incluindo o negócio da escravatura, nas mãos dos árabes
muçulmanos, de conluio com indígenas
locais,
e ao qual os portugueses posteriormente se associaram.
É
conhecido, por exemplo, que os Lomuès (Macuas) de Moçambique, nos
tempos idos, praticaram a escravatura em larga escala e que quando um chefe morria, com este eram enterrados escravos ou
crianças vivas.
É raramente
apontado que a pobreza extrema em que muitos africanos viviam
nesses tempos chegava ao ponto de os compelir para a escravatura
voluntária, já que tinham assim assegurada a sua sobrevivência, a um preço desumanamente elevado.
É igualmente pouco
conhecido que outro motivo de escravatura resultava de alguns africanos
ao pedirem empréstimos a senhores poderosos da sua área, fosse lá do
que fosse, geralmente davam como penhora a mulher e os filhos. A escravatura existiu, em toda a parte do mundo, desde a
pré-história.
O número de escravos africanos
traficados, pelos
«europeus», está aquém dos cerca de 30 milhões
sugeridos, devendo rondar, os 10 ou 15 milhões. Em muito maior número
foram os escravos negociados pelos árabes islâmicos e pelos próprios
negros de África, muito para cima dos 25 milhões.
c) Portugal
pagava aos angariadores negreiros africanos com concessões políticas,
dinheiro, contas, têxteis, álcool, mosquetes e outras armas, etc, formando assim um
vicioso "comércio triangular" de lados:
Estes eram apinhados em
condições sub-humanas em grandes e lentos barcos negreiros.
O seu
transporte nem sempre foi pacífico, havendo revoltas e motins ocasionais
que, ou
tiveram relativo sucesso, ou foram brutalmente dominados.
Alguns escravos pereceram devido a várias doenças (diarreias, febres de vários tipos, malária, escorbuto,
etc) ou foram mortos por piratas que facilmente se apoderavam dos
barcos negreiros com pouca tripulação
e mal armados. Nos E.U.A, um país ocidental acusado de
ter fomentado a escravatura, esta foi por decreto abolida em 1808 nos Estados do
Norte e em 1865 nos do Sul. Em contrapartida, por exemplo, em Zamzibar,
um notório centro de escravatura, esta foi abolida em 1897 e, no Nepal,
só em 1925. É curioso que o livro sagrado dos muçulmanos, o Corão,
legitima a existência de escravos, embora estipule que devam ser
tratados humanamente. Os cidadãos do mundo moderno,
de todas as etnias, em África e fora de África, devem
uma sentida homenagem aos milhões de escravos (incluindo incontáveis
crianças), de todas as origens que foram
capturados, transportados, escravizados e explorados de uma maneira
brutal, e não esquecer que ainda hoje, em vários países africanos,
(todos eles independentes há décadas!), e não só, se
pratica a escravatura em moldes não muito diferentes de há séculos, e continua a haver variantes da vergonhosa "exploração do
homem pelo homem", para vários fins. | Topo | Act: 1703061833
Se
pudessem pagar o empréstimo, tudo bem, se não... as mulheres e os
filhos passavam a escravos.
Um escravo seminu a ser publicamente
chicoteado.
Estirados no chão, dois outros escravos já teriam sofrido
o mesmo vexame.
Crédito: Biblioteca Nacional Brasileira
a) Dos traficados pelos Portugueses, uns poucos eram utilizados
nas zonas de captura, mas a
maioria seguia para as plantações do Brasil, embora alguns
acabassem em Portugal, e no resto da Europa, como "serviçais"
e, uns poucos, na América do Norte.
b) Do Brasil exportava-se, como fruto do trabalho desses infelizes,
sobretudo o açúcar, o algodão e o tabaco.
Uma "reciclagem" vergonhosa,
o "Comércio Triangular"
Escravos --» Produtos
agrícolas --» Pagamento.
São Tomé não só recebia escravos negros de África e chineses de Macau, prioritariamente para as suas
grandes plantações do cobiçado cacau (a noz do cacaueiro é do
tamanho de uma papaia média, mas tem a casca escura e dura), como cedia parte deles para o Brasil.

Fruto do cacaueiro,
com uma noz aberta, expondo as sementes.

O espaço nos barcos negreiros era
aproveitado ao máximo.
(Ilustração feita baseada noutra da Biblioteca Nacional Brasileira)
Muitas mulheres e raparigas adolescentes foram "usadas" para
satisfazerem a luxúria ocasional dos seus patrões e familiares,
dando origem a gerações de mestiços, ou «mulatos». No entanto, houve algumas uniões afectivas estáveis de
brancos com escravos, e dessas uniões nasceram filhos que, por vezes,
alcançaram grande sucesso político e económico.
Uma vez colocados nas plantações os
escravos viviam em condições deploráveis de trabalho, alojamento,
alimentação e tratamento social, tendo uma média esperada de
sobrevivência de apenas 10 anos. Houve várias rebeliões e tentativas
de fuga nos territórios onde eram internados. Sobretudo no Brasil
deram-se revoltas bastante sangrentas e fugas de escravos para o
interior do vasto território onde procuravam formar comunidades livres.
Para combater este estado de coisas foi criado a posição de
Capitães-do-mato, encarregados de capturar os escravos fugitivos.
Portugal foi dos primeiros países
europeus a efectivamente abolir a escravatura, começando por publicar
uma série de decretos restritivos a essa prática desde o século XV, e
a partir do início do século XVII tomou a fundo o desejo de
abolir tal tráfico. Por exemplo, em 5 de Julho de 1856, aboliu a escravidão em
zonas de Angola, Cabinda e Macau. A 18 de Julho do mesmo ano
nova lei concede alforria a todos os escravos que desembarcassem em
Portugal, Açores, Madeira, Índia e Macau. Em 25 de Abril de 1858, data
do casamento de D.Pedro V, novo decreto determina que a escravatura e a
escravidão acabariam em todo o território português em 1878, mas o tráfico
de escravos foi definitivamente encerrado em 1869.
Após a abolição da escravatura por Portugal, nas zonas terrestres e marítimas
sob seu controlo continuou o trafico ilegal, dando-se incidentes como o
aprisionamento, por portugueses, do barco Charles et Georges nas costas
de Quitangonha. A Marinha de Guerra portuguesa capturou, nas costas da
África Ocidental e Oriental vários navios negreiros, não só de
portugueses renegados, mas ingleses, americanos, franceses, holandeses,
árabes e brasileiros.

O fim da escravatura no Maláwui?
Foto:Jean Béliveau (wwwalk.org/)Curiosidade:
O letreiro ao lado desta árvore reza que foi debaixo dela que o
Dr.Livingstone negociou com o chefe
nativo local, o fim da escravatura no Maláwi.