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O 25 de Abril de 1974 -  2ª Página


A 26 de Outubro de 1970, a ARA (Acção Revolucionária Armada), o braço armado ultra secreto do PCP, foi criado por Jaime Serra, Francisco Miguel, Raimundo Narciso e Álvaro Cunhal, ao qual unicamente respondia, após a ruptura entre o PCP e a FPLN (Frente Portuguesa de Libertação Ncional), o seu núcleo em Argel. 
Estreia-se com a sabotagem do navio Cunene, que era usado no transporte de material bélico para o ultramar (colónias). Gabriel Pedro, um activista do PCP, foi acusado pela PIDE de ser o autor do atentado. Foi um alvo alternativo pois os sabotadores pretendiam atingir o paquete Vera Cruz, do que foram impedidos pela presença de patrulhas da Polícia Marítima. A ARA atacou outros alvos, como uma estação dos CTT que dava apoio à reunião ministerial da NATO, derrubou muitos postes de transporte de energia eléctrica e atacou a Base Aérea N.º 3 de Tancos, onde destruiu helicópteros e aviões.

A ARA foi precedida de outras organizações militares do PCP como: GAC (Grupos Armados de Combate), a FAP ( Frente de Acção Popular), a LUAR ( Liga de Unidade e Acção Revolucionária), as BR (Brigadas Revolucionárias), que tiveram duração efémera e actividade sem consequências de maior, excepto a LUAR que foi responsável por muitos actos espectaculares, como o caso do Santa Maria, o desvio de um avião da rota de Casa Blanca, assaltos a consulados portugueses com roubo de passaportes, carimbos, etc.
 
Estes atentados criaram certa instabilidade entre os membros moderados do PCP que se opunham à prática de actos de violência. As suas actividades foram suspensas em Maio de 1973, por ordem de Álvaro Cunhal, provavelmente espoletada pela prisão de vários dos seus operacionais. Segundo um dos seus membros, a ARA «possuía cerca de 200 armas - pistolas, metralhadoras, granadas, explosivos - tudo desviado do exército colonial». Cunhal afirmava que a "ditadura fascista do Estado Novo" só podia, e devia, ser derrubada pela força, embora directamente não advogasse tácticas de terrorismo indiscriminado contra civis. Não aceitava a ideia, de outros comunistas mais moderados, da possibilidade de uma mudança através de influências retóricas de consciencialização popular ou das forças políticas e militares que levassem à queda pacífica da ditadura e à implantação de uma democracia. Cunhal queria tomar o poder pela força, para mostrar que tinha força político-militar, e poder impor a entrada de Portugal na órbita do comunismo internacional da URSS.

A agitação militar e o nascimento do MFA - "A Esquerda, a Direita..."

Uma «guerra colonial injustificada» que parecia não ter fim, com mortos e feridos, foi a principal isca usada pelo PCP, para atrair o descontentamento de populares e militares em Portugal. Existiam outras forças políticas, para além do PCP, com interesse em derrubar o governo de «ditadura fascista» de Caetano. Os partidos comunistas (havia vários) foram, no entanto, aqueles mais ruidosamente activos, sobretudo em manifestações de rua e greves, grafito (mais vulgarmente conhecido por graffiti, no plural) e distribuição de panfletos.

Curiosamente, o PCP (marxista-leninista) evitava intitular-se um "partido das esquerdas", termo com que pejorativamente rotulava os partidários do MRPP, os maoistas, etc, atitude que se tornou mais patente no pós-25 de Abril por altura das primeiras eleições, em que os seus militantes tanto detestavam os "reaccionários da esquerda como os reaccionários da direita", e o PS de Mário Soares. Uma estratégia usada pelo PCP (antes e depois do 25 de Abril) foi o de criar organizações  em todos os estratos sociais (estudantis, intelectuais, magistratura, operariado, militares, etc), como se elas pouco ou nada tivessem a ver com o PCP, e algumas foram legalizadas. O partido Os Verdes, por exemplo, é uma dessas organizações políticas criadas pelo PCP sob o pretexto da defesa de interesses ecológicos.

A 21 de Janeiro de 1973, dão-se grandes manifestações anticoloniais, em Lisboa.

Em 1974 Spínola publica o controverso livro, Portugal e o Futuro, em que sugere a criação de um Portugal federal englobando os territórios ultramarinos, deitando mais achas na fogueira.

O embrião do 25 de Abril:

A 28 de Agosto de 1973 dá-se a eleição da primeira comissão do "Movimento dos Capitães", constituída pelos Capitães Almeida Coimbra, Matos Gomes, Duran Clemente e António Caetano.
Tiveram várias reuniões clandestinas, dentro e fora de Portugal metropolitano, destacando-se a de Bissau em 21 de Agosto de 1973 e a de 9 de Setembro de 1973, em Monte Sobral, dia em que oficialmente nasce o MFA (Movimento das Forças Armadas), com a presença de 95 Capitães, 39 Tenentes e 2 Alferes.

Os «Capitães de Abril», tinham várias tendências políticas (mas mais inclinadas para a esquerda) e, segundo o «Programa do MFA», alegavam que pretendiam «acabar com as Guerras Coloniais que se arrastavam há 13 anos, abolir a censura e a PIDE/DGS, instaurar uma melhor justiça social, acabar com monopolismos, e providenciar eleições livres e uma Constituição nova»

A 24 de Setembro de 1973 a Guiné Bissau proclama unilateralmente a independência, que será confirmada por Portugal a 10/9/1974 após o Acordo de Argel de 29/8/1974.

5 de Março de 1974: Reunião de cerca de 200 oficiais dos três ramos das Forças Armadas, em Cascais, no atelier do arquitecto B. Reis. O MFA distribui discretamente o documento Os Militares, as Foças Armadas e a Nação, criticando o governo e implicitamente incitando o país à revolta.

14 de Março de 1974: 
Marcelo Caetano recebe Oficiais-Generais dos três ramos das Forças Armadas, na célebre reunião alcunhada de «Brigada do Reumático», para se assegurar do apoio dos militares contra uma suspeitada conspiração.
Spínola e Costa Gomes recusam-se a comparecer, e são demitidos dos altos cargos militares que ocupavam.

16 de Março de 1974: Tentativa de golpe militar. Às 04h00 da madrugada, uma coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha marcha sobre Lisboa. É intersectada e o golpe falha, sendo presos cerca de 200 militares.

24 de Março de 1974: o MFA decide que é necessário uma revolução militar mais alargada para derrubar o governo de Caetano e começou a infiltrar a ritmo acelerado,  instituições governamentais dentro e fora do meio militar e da própria DGS/PIDE, aliciando homens de confiança em posições-chave.

Saberá o que diz?      O 25 de Abril de 1974

O posto de comando dos golpista foi instalado, clandestinamente, no Regimento de Engenharia N.º 1 no Quartel da Pontinha. Aí encontram-se, os Tenentes-Coronéis Lopes Pires e Garcia dos Santos, os Majores Otelo Saraiva de Carvalho, (que assume o comando do grupo), Sanches Osório e Hugo dos Santos, o Capitão-Tenente Victor Crespo e o Capitão Luís Macedo.

Às 22:55h, uma senha musical («E depois do adeus», de Paulo de Carvalho) transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa dá a confirmação que o golpe ia adiante.
Às 0:20h outra musica («Grândola Vila Morena», conhecida música de José Afonso), no programa "Limite" da Rádio Renascença, dá o sinal para ser iniciada a acção militar.
Basicamente, não entrando em grandes detalhes, os revoltosos apoderaram-se, sem grande dificuldade, do Quartel General da Região Militar do Porto, do Aeroporto de Pedras Rubras, da RTP e do RCP no Porto. Igualmente, e deitando mão a relatos dos próprio revoltosos:

«A  maior parte dos objectivos a conquistar situava-se evidentemente em Lisboa, razão pela qual, a partir das 3 horas da manhã de 25 de Abril (operacionalmente considerada a Hora H ), começaram as forças a efectuar os respectivos movimentos em direcção aos objectivos que a cada uma estavam destinados. A partir desta hora, sem qualquer esboço de resistência, foram caindo nas mãos dos revoltosos os centros nevrálgicos da capacidade de manobra do regime: RTP, Rádio Clube Português, Emissora Nacional (sintomaticamente os primeiros objectivos conquistados eram todos meios de comunicação social, vitais para qualquer dos contendores), Quartel-General de Lisboa, Aeroporto Internacional, Banco de Portugal e Rádio Marconi. Nas primeiras horas foram igualmente bloqueadas vias de comunicação importantes e executados movimentos de tropas em direcção aos centros de decisão do regime: Terreiro do Paço, instalações da DGS, quartéis da Legião Portuguesa e tropas potencialmente adversas.
Em poucas horas, e sem que fosse visível qualquer reacção governamental organizada, grande parte do plano operacional do MFA estava executado.»

O governo ordena um contra-ataque por tropas do quartel de Braga, que recusam acatar ordens e se juntam aos revoltosos.

Salgueiro Maia comandando as forças da Escola Prática de Cavalaria (Santarém) ocupa o Terreiro do Paço e depois cerca o Quartel da GNR do Carmo onde se tinha refugiado Marcelo Caetano. O quartel é atacado com rajadas de metralhadoras ligeiras e, por fim, Caetano rende-se, às 19h30m, ao General António de Spínola, antigo Governador da Guiné, é transportado no BULA (um blindado Chaimite - ver imagem numa das páginas sobre o Maputo), é enviado para a Madeira e exila-se no Brasil, onde vem a falecer.
Blindado cercando o Quartel do Carmo

Assim acaba vitoriosa uma revolução, salva pela desmoralização, indisciplina e apatia que reinava no exército, que não reagiu aos golpistas, pelo «adormecimento» prévio de parte da infiltrada DGS/PIDE (um agente da PIDE/DGS reportou que eles sabiam que uma revolução estava a ser forjada, sabiam quem eram os principais cabecilhas e que comunicaram tal facto ao Governo, mas que este não deu ordem para actuarem. Apenas num ponto estavam errados: pensavam que a revolução se daria a 1 de Maio de 1974, e não umas semanas antes como sucedeu), e por um apoio popular eufórico, mas inicialmente passivo, que ocorreu à rua mais para apreciar o Tatoo militar (espectáculo aparatoso militar) do que para activamente cooperar na acção, mas houve elementos populares mais exaltados que gritaram slogans, atacaram e destruíram alguma propriedade e ajudaram na prisão de «fascistas».

Na foto acima, vemos populares descontraídos, apinhados num carro de combate. Se fosse uma revolução a sério, com tiroteio de parte a parte, é duvidoso que tal fotografia pudesse ser tirada.
Segundo dados um tanto contraditórios, houve dezenas de civis feridos e morreram nesta revolução 4 manifestantes, abatidas pela DGS, e um dos seus agentes, que tentava fugir.

Como disse um historiador, «foi uma revolta sem adversário», que se alimentou a si mesma, em homens e material bélico, à medida que as guarnições militares leais ao governo, tendo de escolher entre «reagirem e derramarem sangue ou renderem-se» (como mais tarde confessariam), optaram pela solução mais cómoda, e juntaram-se aos golpistas.
A própria fragata Gago Coutinho  fundeada no Tejo, frente ao Terreiro do Paço, rapidamente desistiu de entrar na luta e bateu em retirada, apesar do poder de fogo de que dispunha. O MFA tinha dado, entretanto, ordens para a afundarem caso ela abrisse fogo contra os revoltosos.

A Chaimite Bula que transportou Caetano, meia dentro do Quartel do Carmo.

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Cravo Ao 25 de Abril também se chamou, sentimentalmente, A Revolução dos Cravos, por terem aparecidos vários soldados com um cravo enfiado no cano da espingarda, copiando os colegas a quem uma senhora, deu tal flor. Relata-se que uma vendedora de rosas ter-se-ia cruzado com uma coluna de soldados revoltosos em Lisboa. Espantada, perguntou-lhes o que se passava, e eles responderam tratar-se de uma revolução. Um dos soldados pediu-lhe então um cigarro, ao que ela retorquiu que só tinha rosas, que distribuiu pelos soldados.

O prelúdio da III República
Nos dias seguintes libertaram-se políticos encarcerados nas prisões de Caxias e Peniche, verificou-se um regressar de exilados políticos (a 28 dá-se o regresso de Mário Soares e a 30 o de Álvaro Cunhal) e, em contrapartida, um êxodo de descontentes com a revolução.

O primeiro 1 de Maio, após o 25 de Abril
Acreditando nas boas intenções dos revoltosos, o povo ocorreu, em massa, ao 1 de Maio, depois do golpe.


Foto de uma manifestação do 1 de Maio em 1974, Lisboa

O 1º Governo Provisório

Instituiu-se uma Junta de Salvação Nacional, constituída por 2 representantes do Exército (Spínola e Costa Gomes), 2 da Marinha (Rosa Coutinho e Pinheiro de Azevedo), outros dois da Força Aérea (Diogo Neto e Galvão de Melo) e tendo como o 7º elemento o general Silvério Marques.

Spínola assumiu a presidência da Junta de Salvação Nacional, assim como a Presidência da República do 1º Governo provisório, a 16 de Maio de 1974, chamando para Primeiro Ministro, Palma Carlos, um prestigioso advogado liberal, e incluindo, entre outros, os Drs. Álvaro Cunhal, Mário Soares e Sá-Carneiro.

O MFA não é dissolvido e forma uma «Comissão Coordenadora», tendo-se assim uma estrutura bifurcada de governo com ideias diferenciadas, o que iria criar muitos atritos.

A dúvida crucial: A quem compete governar o país?

Para a Junta de Salvação Nacional, era a um governo  legitimamente eleito.
Para a maioria dos membros do MFA era às forças armadas (e MFA).
Para os partidos da extrema esquerda, «o povo é que ordena», com o apoio do MFA.

O 2º Governo Provisório

Seguiu-se um período tão tumultuoso que Palma Carlos se demite e, abusivamente, O MFA substituiu-o por Vasco Gonçalves, um dos seus membros, que inaugura o 2º Governo Provisório.

A 27 de Julho de 1974 o governo reconhece o direito das colónias ultramarinas à independência através da Lei 7/74.

Spínola apela «à maioria silenciosa» que lhe dê apoio. Esta responde à chamada organizando uma manifestação em Lisboa que acaba por se não realizar porque o Partido Comunista e o MFA levantam barricadas nas entradas de Lisboa.
Desiludido, e após uns meros 4 meses no poder, Spínola, a 28 de Setembro de 1974, renuncia ao seu cargo de Presidente, alegando: «O meu sentido de lealdade inibe-me de trair o povo a que pertenço e para a qual, sob a bandeira de uma falsa liberdade, estão preparando novas formas de escravidão», frase esta que sintetiza a realidade política dos primeiros anos do 25 de Abril.

O 3º Governo Provisório  --  O 11 de Março de 1975 ---  O Gonçalvismo

Mais uma vez, abusivamente, o MFA, escolhe o general Costa Gomes para o substituir, mantendo Vasco Gonçalves como Primeiro Ministro. Entra-se no 3º Governo Provisório conhecido por «Gonçalvismo», um governo de ditadura militar, apoiado pelo Partido Comunista e militares da esquerda.

Entrou-se num período conturbado de expropriações, prisões, controlo total dos meios de comunicação e  aceleração das negociações para a independência das colónias.
A 31 de Dezembro de 1974 é confirmada a decisão, tomada a 15 de Outubro, de Portugal reconhecer a soberania da União Indiana sobre os antigos territórios portugueses na Índia

Spínola desiludido com a situação e, ao saber (boatos intencionais?) que a esquerda comunista e o PCP estariam a elaborar uma «Matança da Páscoa», para eliminarem cerca de 500 personagens (civis, políticos, e militares incluindo ele mesmo), e que eram considerados opositores do PREC (Processo Revolucionário em curso), tentou uma revolução a 11 de Março de 1975, cujo malogro obrigou-o a exilar-se inicialmente no Brasil e de que resultou a criação do MDLP, descrito mais abaixo.

O malogro foi devido ou a uma má organização militar da revolta ou, muito provavelmente, por esta ter sido provocada por uma manobra sub-reptícia de agitadores das esquerda, para terem um pretexto para avançarem em força com as desastradas políticas Gonçalvistas de nacionalizações.

Regressando anos depois a Portugal, foi promovido a marechal do Exército e, em Dezembro de 1981 é nomeado chanceler das Antigas Ordens Militares, pelo então Presidente Mário Soares. Nascera a 11 de Abril de 1910, em Estremoz, no Alto Alentejo, e faleceu  a 13 de Agosto de 1996 em Lisboa.

O 4º Governo Provisório

A seguir a este golpe falhado forma-se o Conselho da Revolução, que substitui a Junta de Salvação Nacional, e entra-se no 4º Governo Provisório, ainda tendo como Primeiro Ministro, Vasco da Gama.

A instabilidade social e política continua, com vários partidos digladiando-se pelo poder, com golpes e contra golpes políticos em que se fizeram, e se desfizeram, muitas alianças. Os socialistas e os comunistas, as duas pedras fundamentais do 25 de Abril, deixaram de se entender. Houve confrontos físicos entre os seus partidários, com uns impedindo os outros de realizarem manifestações, e ficou famoso o caso «República», o jornal da oposição da época salazarista.
Após a Revolução dos Cravos, os trabalhardes pró-comunistas apoderaram-se do jornal cuja direcção era socialista, originando um conflito que levou ao fecho das instalações, e que só foi solucionado pondo um militar como director do jornal e permitindo que os trabalhadores reocupassem as suas posições.

O PS consegue organizar um comício em Lisboa em que pede a demissão de Vasco Gonçalves. Grupos da Direita incendeiam sedes do PC, da UDP e do MDC/CDE. 

O 5º Governo Provisório, e o Documento dos Nove.

Realizam-se eleições a 25 de Abril de 1975 mas o Presidente da República não aceita os resultados eleitorais em que o PS (37,9 % de votos) e o PPD (26,4 % de votos) são os grandes vencedores.

No Conselho da Revolução surgem divergências evidenciadas no «Documento dos Nove», (Grupo de oficiais de tendência moderada pertencente ao MFA  e liderado pelo major Melo Antunes) cujos autores recebem o apoio da maioria dos oficiais das forças armadas e até (espantoso!) de Otelo Saraiva de Carvalho, um radical de tendência de esquerda, comandante das forças operacionais do COPCON. Este documento condenava o gonçalvismo e propunha o estabelecimento de uma política socialista.
O MFA toma a decisão inédita de demitir os oficiais gonçalvistas do Conselho da Revolução, incluindo o ministro Vasco Gonçalves. Cai assim o 5º Governo Provisório.

O 6º e último Governo Provisório

Toma posse a 19/9/1975, com Pinheiro Azevedo por Primeiro Ministro, e um elenco governamental de tendência Socialista.
Quer o povo, quer o exército, estavam fortemente divididos entre dois ideais: o de Esquerda e o da moderação social. Como resultado, nunca «o povo unido jamais será vencido» esteve tão desunido, intolerante e agressivo, e à beira de uma guerra civil.
As estações de rádio, nas mãos da Esquerda, difundem continuamente mensagens clamando por uma revolução popular. Portugal é varrido por uma onda de violência sem procedentes, incluindo um assalto à Embaixada de Espanha que é saqueada e incendiada, a ocupação da Rádio Renascença, um cerco ao Parlamento que durou 2 dias, manifestações de soldados e dos SUVES (Soldados Unidos Vencerão), etc. Concede-se a independência às Províncias Ultramarinas.

O 25 de Novembro de 1975 e o «Verão Quente»

Pára-quedistas de Tancos pedem a demissão do chefe do Estado-Maior da Força Aérea. O Conselho da Revolução responde com a dissolução da Escola de Pára-quedistas (entretanto, os 123 oficiais que lá estavam já a tinham abandonado). Então dá-se o esperado golpe militar das esquerdas a 25/11/1975, quando os pára-quedistas saem de Tancos, e rapidamente ocupam as bases aéreas de Monte Real e do Montijo e o Quartel-general da Força Aérea, em Monsanto, recebendo o apoio da Polícia Militar de Belém e do Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS).
Elementos militares ligados ao Grupo dos Nove, comandados por Ramalho Eanes reagem e subjugam os revoltosos, entre os quais tinham, entretanto, surgido dissidentes.
Tinha-se acabado de ultrapassar as dificuldades do «Verão Quente». As forças armadas, ao longo destes 6 governos, actuaram como uma força destabilizadora, e foi só a partir desta revolta falhada que termina a tentativa de implantação pela força de um regime comunista sob o PCP, em Portugal, e se começa a notar uma viragem para o centro e uma tendência para a estabilidade.

O que foi o MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal)? Algumas opiniões:

«Alpoim Calvão, um oficial da Marinha que se tornou lendário pela ousadia das suas actuações no teatro da guerra colonial, fundou, a seguir ao 11 de Março, o MDLP, que teve como bandeira o general Spínola.

Calvão afirma que, na origem deste movimento aglutinador das forças da direita e da extrema-direita durante o PREC, esteve o PS, porque o MDLP resultou de um pedido de ajuda do PS aos spinolistas, a seguir ao 28 de Setembro, para que se criasse, na área militar, uma força que se opusesse ao PCP.

Depois do 25 de Novembro, o MDLP auto-extinguiu-se, porque a democracia foi restaurada, garante o seu criador e líder. Mas o ódio de Alpoim Calvão ao PCP não desapareceu [...] em Portugal vivia-se uma espécie de ressaca do "Verão quente". Continuavam os atentados. E foi este ano, de 1976, que maior contributo deu para as acções de terrorismo que ocorreram em Portugal entre Outubro de 1974 e Fevereiro de 1977. Um relatório da Polícia Judiciária Militar regista 453 acções terroristas. E algumas foram da maior gravidade.

Em Abril de 1976 foi assassinado o padre Maximiano de Sousa. Semanas depois, rebentou uma bomba na embaixada de Cuba e morreram dois funcionários diplomáticos. A 1 de Maio explodiu um carro armadilhado junto à sede do PCP, na Avenida da Liberdade, e morreu um jovem que ia a passar. Em S. Martinho do Campo, Santo Tirso, foi morta uma mulher, Rosinda Teixeira, também na sequência da detonação de uma carga explosiva»
http://dossiers.publico.pt/25novembro/artigos_relacionados/mdlp_ps.html

«... principais organizações da contra-revolução em Portugal. O ELP (Exército de Libertação Português), fundado pelo antigo subdirector da PIDE Barbieri Cardoso, lançou panfletos e foi acusado de pegar fogo a matas e pinhais. Mais importante politicamente foi o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), que estivera para se chamar Frente de Salvação Nacional, nome recusado pelo seu mentor, Spínola. A certa altura, garantia ter mil homens armados prontos para entrar em Portugal. Depois de ter sido denunciado pelo jornalista Gunter Walraff, que se fizera passar por traficante de armas, o MDLP perdeu a pouca importância política que tinha. Entre outros movimentos com a mesma conotação política, conta-se a Maria da Fonte, do editor Paradela de Abreu, com ligações à Igreja, a partir do arcebispado de Braga.»
http://dn.sapo.pt/2005/08/27/nacional/nomes_siglas_e_casos_para_entender_a.html
Nota: Spínola, «um militar e cavalheiro» dissolveu o MDLP em Abril de 1976 aborrecido com a militância de alguns dos seus elementos, mas as acções terroristas continuaram por alguns meses por elementos «desgarrados».
 
O 1º Governo Constitucional - O parto da III República (Democrática)

Em 2 de Abril de 1976 promulga-se a nova Constituição, e em 25 de Abril de 1976, apesar dos esforços de sabotagem do PCP, realizam-se as primeiras eleições legislativas e, pouco depois, as eleições presidenciais.

O 1º Governo Constitucional forma-se tendo  Ramalho Eanes, como Presidente da República, que se mantém no poder entre 14/7/1976 e 9/3/ 1986, o qual indicia Mário Soares para Primeiro Ministro.

E depois?

Em 1986 dá-se a adesão de Portugal à Comunidade Europeia.

Ramalho Eanes é sucedido pelo Dr. Mário Soares entre 9/3/1986 e 9/3/1996 que, por sua vez, é sucedido pelo Dr. Jorge Sampaio.

Camarate

Foi outro capítulo negro da história pós 25 de Abril. A 3 de Janeiro de 1980, o Presidente Ramalho Eanes chamou Sá Carneiro (19/7/1934 - 4/12/1980) para Primeiro Ministro, sucedendo a Maria Pintassilgo.
A 4 de Dezembro de 1980, o pequeno avião Cessna 421A em que seguia despenhou-se em Camarate, nos subúrbios de Lisboa, depois de descolar do aeroporto de Lisboa rumo ao Porto, matando os dois pilotos, Sá Carneiro, o Ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa e respectivas esposas. A versão oficial (mantida durante quase 3 décadas de estranhas investigações) foi que se tratara de um acidente, por falha no avião, apesar de existirem evidências (vestígios de explosivos nas pernas do piloto) que apontavam para crime.
Em 2005, novo inquérito leva a concluir que Sá Carneiro tinha sido de facto vitimado por uma bomba colocada no avião.

História e «estória».

A história é uma compilação de «estórias» e os jovens, que não viveram na década que antecedeu e na década que sucedeu ao 25 de Abril, conhecem Salazar e a Revolução dos Cravos, através de «estórias», em que apenas um lado da moeda é apresentado. Assim...

A «estória», meia deturpada, ensinada aos jovens:

a) Salazar foi um facínora e um ditador fascista que nada fez em prol do bem estar de Portugal e dos portugueses.
b) Só os filhos de pais ricos podiam frequentar o «liceu» (hoje dito de ensino básico e secundário) e o ensino superior. O país era tão pobre que a maioria das crianças, só iam à escola até fazerem a 4ª classe e depois tinham de ir trabalhar. 
c) Salazar  permitiu uma ingerência exagerada da Igreja na vida do Estado e das pessoas.
d) Salazar olhava para as colónias apenas como fontes de receita e escravizou países como a Índia Portuguesa,  Moçambique, Angola ou Guiné.
e) Os mancebos eram obrigados a alistarem-se na tropa para serem enviados para as Guerras Coloniais.
f) Com o 25 de Abril derrubou-se a ditadura de Salazar, e a Bandeira Nacional e o Hino «A Portuguesa» são símbolos fascistas.
g) Os capitães de Abril foram uns messias patrióticos que só tinham em mente libertar os portugueses do terror e miséria em que viviam, acabar com uma guerra não justificada e implantar uma democracia.
 

A história, mais verdadeira, que não lhes é contada:

NOTA: A verdade histórica (quando se pensa ser sabida) é uma obrigação moral e cívica, sem que, ao ser dita, tal signifique uma apologia de factos descritos, ou concordância  com eles. Por exemplo, Fidel de Castro é um ditador, mais ditador que Salazar o foi, mas não podemos negar que com atropelos aos direitos humanos e com opositores torturados e metidos em masmorras, ele pensa que está a gerir o país da maneira mais conveniente para o bem estar dos cubanos e que, em certos campos, contribuiu para o desenvolvimento social do país.

a) O salazarismo foi considerado uma ditadura militar fascista mas foi, com mais exactidão, «um regime autoritário», já que Salazar não implantou regimes como o fascismo italiano do Duce  Mussolini, ou a ditadura nazista do Fuhrer  Adolfo Hitler. Foi um ditador suave quando comparado com Fidel de Castro, com Pinochet, com Saloth Sar (Conhecido como Pal Pot do Khmer Rouje), ou com os ditadores governantes de países comunistas da sua época, e fez bastante pelo bem estar de Portugal.

Além de equilibrar as contas do Estado, Salazar ergueu inúmeras obras públicas, contando-se entre elas infra-estruturas de transporte como a já referida Ponte Salazar, hospitais, escolas, melhorou as condições de trabalho ao estabelecer algumas regras na relação entre patrão e empregado através do Estatuto do Trabalho Nacional, de Grémios, de Casas do Povo e de Pescadores e de «sindicatos nacionais», organismos sob o olhar vigilante do Estado, mas é falso dizer-se que não havia um mínimo de liberdade de expressão de pensamento e de acção.


Humberto Delgado no República, 1958.

Durante o seu regime existiu um jornal da oposição (O República dirigido por Raul Rêgo), de grande e livre circulação, embora censurado como todos os outros jornais, pela Comissão de Censura, um órgão que passava a pente fino tudo o que era divulgado ao público (riscando a lápis azul o que não podia ser publicado, daí a ser conhecida como «O Lápis Azul»), e no Teatro de Revista eram muito vulgares as piadas políticas, nada veladas.

A partir de certa altura, os espaços, no Repúlica, que seriam ocupados pelo artigos censurados, apareciam em branco carimbados «CENSURADO». Que outros ditadores permitiriam tal audácia?

Para além do jornal República circulavam centenas de panfletos meio-clandestinos de várias origens, e vários magazines de oposição, legais, como a conceituada  Seara Nova (que derivou de A Águia) uma revista política e cultural, aglutinando grandes nomes como Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, Jaime Cortesão, Augusto Casimiro e Raul Proença.

Igualmente, como referido na primeira página, havia organizações «antifascistas» sempre em confronto visível com a lei vigente, resultando não só em manifestações e consequentes prisões, mas também em julgamentos que a oposição considerava viciada.

Por exemplo, em Dezembro de 1956, «iniciam-se no Tribunal Plenário do Porto as audiências do julgamento que ficou conhecido como o "julgamento dos 51". São julgados membros do MUD Juvenil e outros militantes da causa da Paz, intervindo no processo cerca de 30 advogados e 300 testemunhas de defesa.
Decorre uma campanha nacional pela amnistia para os presos políticos, com recolha de assinaturas depois entregues na Assembleia Nacional » (Fonte: Comunicado do MUD)

Note-se no número de advogados e testemunhas de defesa envolvidos, e a recolha de assinaturas em público, o que evidencia que o medo ao regime não era tão grande como se diz agora. Havia mesmo uma certa tolerância governamental com respeito a alguns actos, como o de  25 de Outubro de 1951, em que é  decidida a criação do Dia do Estudante numa reunião de dirigentes estudantis de Lisboa, Porto e Coimbra, na presença de um delegado do Ministério da Educação Nacional .

b) Só os filhos de pais ricos podiam frequentar o «liceu»? É uma espalhafatosa acusação. Apenas nos meios rurais que fossem muito atrasados e pobres, é que tal podia acontecer, geralmente por falta de meios de transporte. Milhares e milhares de crianças de famílias pobres, incluindo muitas de famílias partidárias da ideologia comunista,  frequentaram o liceu, a Escola Técnica, a Escola  Comercial, o Instituto Industrial (Estas 3 instituições foram fechadas após o 25 de Abril!) e a Universidade, e muitos delas fizeram-no com bolsas de estudo dadas pelo governo.
Se o país era assim tão pobre como se diz, como justificar o facto dos «liceus», e das universidades, estarem a abarrotar de alunos, de todas as classes sociais?

Dados estatísticos:

Percentagem de analfabetismo:
1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970
70,3 66,2 61,8 49 40,4 32,1 26,6

Curiosidade: A 15 de Julho de 2007 realizaram-se as Eleições Intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa, após a queda de Carmona Rodrigues. Nas estatísticas lê-se: "12,5% dos eleitores a estas eleições (estamos a falar de Lisboa e não de uma aldeia do interior) não sabem ler ou escrever ... 33 anos após o 25 de Abril.

Afluência escolar:
Ano lectivo 1930/31 1945/46 1960/61 1974/75
Escola Primária 422 624 594 554 0 975 261 0 941 765
Liceu * 019 268 043 638 0 111 821 0 612 371
Técnico Profissional * 018 375 047 109 0 105 103 0 123 044
Ensino Superior ** 007 037 011 605 *** 0 023 877 0 058 605
Total: 467 304 696 906 1 216 062 1 735 785

* Oficial e privado
** Universidade de Coimbra, Lisboa, Porto, Técnica de Lisboa, e outros.
*** Média de: 9321 em 1940/41 e 13489 em 1950/51

c) A influência da Igreja no Estado não tinha grande peso e pode ser desvalorizada. Em pouco influenciou decisões do governo, a não ser em casos como legislação sobre o divórcio, o aborto, a eutanásia, a divulgação de pornografia, etc. A Igreja e o Estado davam-se bem, inicialmente, mas pelo tempo das guerras coloniais apareceram padres e autoridades eclesiásticas a criticarem o governo. Ficaram famosas as «Reuniões do Rato» em que a hierarquia católica várias vezes se manifestou contra o governo e provocou a intervenção da polícia militar.

A influência directa da Igreja na vida quotidiana é discutível, na medida em que só é católico quem o quer ser. Indirectamente havia alguma ingerência da Igreja  já que as tradições e as regras de convívio social eram influenciadas por «leis morais» religiosas, como o valor da castidade, o não uso de preservativos, a condenação do homossexualismo e de promiscuidades sexuais, etc.

d) Na pior das análises, Salazar olhava para as colónias como províncias de segunda classe, e não apenas como meras fontes de matéria prima valiosa. Através do Acto Colonial determinou-se a intenção de defender, colonizar e civilizar as «províncias ultramarinas», o que de facto foi feito, a uma velocidade e usando métodos discutíveis.
Até princípios de 1950 os indígenas nas colónias foram bastante maltratados mas, a partir daí, houve uma notável melhoria na relação entre brancos e não brancos. É certo que havia uma certa discriminação racial que era mais feita através de desequilíbrios económicos, embora tentando-se não ferir a susceptibilidade dos indígenas, é certo que se usurparam terras a indígenas para serem dadas a colonos vindos da metrópole, como no empreendimento agrícola do Vale do Limpopo em Moçambique, é verdade que o preto era explorado como trabalhador, que o branco tinha mais privilégios e benefícios financeiros e sociais que os nativos, mas é inquestionável que os não brancos tinham acesso ao mundo escolar, etc.

«» É indesmentível que os portugueses criaram muitas infra-estruturas, eliminaram praticamente todas as doenças tropicais como a malária ("paludismo" causado sobretudo por mosquitos), a poliomielite, a lepra, a doença do sono (causada sobretudo pela Mosca Tsé-Tsé), electrificaram o país, trataram e canalizaram água potável reduzindo, em muito, as doenças infecciosas do tracto digestivo como a cólera, ergueram a importante Barragem de Cabora Bassa, construíram escolas, etc.

«» Os Portugueses não introduziram a escravatura em África ou na Índia. Fazer tal afirmação só denota maledicência ou uma ignorância crassa da história. A escravatura africana foi iniciada pelos próprios africanos, existindo desde há dezenas de milhar de anos, e que foi depois transformada num negócio rendoso pelos árabes muçulmanos ao qual os portugueses muito depois se juntaram. Os Portugueses foram, no entanto, dos colonizadores menos desumanos e os que melhor integraram os povos colonizados.
Em Portugal, o tráfico de escravos foi definitivamente abolido em 1869. Em várias áreas dos actuais países africanos independentes continua a existir a escravatura e grossos atentados contra os direitos básicos do Homem e contra a dignidade humana.

«» Os Portugueses não dominaram qualquer país: conquistaram e aglutinaram pequenos potentados. Ao tempo das descobertas marítimas, Guiné, Moçambique, Angola, etc, não existiam como países. Eram áreas habitadas por centenas de povos de diferente etnia e origens, fortemente racistas, em constante estado de guerra e que consideravam os prisioneiros feitos como sendo despojos de guerra de que podiam dispor a belo prazer, sobretudo como escravos, para sacrifícios humanos aos seus deuses, e como alimento (canibalismo).
Os países africanos, como os conhecemos hoje, são fruto de consolidações territoriais, infelizmente feitas à força e com muita injustiça e, centenas de anos depois, aceites internacionalmente como fronteiras nacionais por tratados do após Grande Guerra. Não que tenha sido uma decisão muito acertada, na medida em que os afectados não foram consultados, e acabou-se por se manter juntos tribos que nunca se deram bem entre si.

e) "Ir à tropa" era obrigatório em muitos países, incluindo a URSS.
As ex-colónias eram, oficialmente, território português, e tornaram-se palco de guerras que, do lado dos nacionalistas negros aspirando a uma legítima independência, eram, financeira e militarmente, alimentadas por potências estrangeiras.


Colono morto à catanada e decapitado, em Angola

Se todos os portugueses masculinos fossem forçados a ingressar na tropa, sem excepções como é frequentemente afirmado, então não encontraríamos milhares de jovens em idade militar nas (sempre cheias) universidades e estabelecimentos afins. A muitos estudantes universitários era permitido prosseguir nos estudos e depois destes completados eram então chamados, como oficiais milicianos.

Nos primeiros anos da guerra colonial, o PCP instigava os mancebos à deserção mas, decorridos uns anos, mudou de estratégia, impondo que os seus elementos se alistassem de modo a que, integrados no exército, e por vezes com uma hierarquia de relevo, pudessem minar o moral dos combatentes e doutriná-los a seu favor. A deserção só era aconselhada pelo PCP se exercida em grupo, no teatro de guerra, e com rendição aos guerrilheiros dos movimentos de libertação, que combatiam.

Nesses tempo, houve elementos das forças armadas portuguesas que não queriam ir, como soldados regulares,  para uma guerra em território português (estima-se que havia uma taxa de refractários da ordem dos 22%). Hoje, elementos dessas forças disputam o «privilégio» de irem, voluntariamente, para palcos de guerra no estrangeiro, como na Bósnia, Iraque, Afeganistão, como se fossem «mercenários» já que (descontando as razões políticas dadas pelos responsáveis, para consumo público) o fazem para ganho monetário e progresso de carreira ...

f) Com o 25 de Abril derrubou-se a ditadura de Salazar? Quando se deu o 25 de Abril, Salazar estava morto, politicamente há 6 anos, e fisicamente há 4. O governo derrubado foi o de Caetano, e nos dois anos seguintes à revolução substitui-se uma ditadura civil por uma ditadura de militares ambiciosos.

A Bandeira e o Hino Nacional actuais, são símbolos inventados por «fascistas»? Outro disparate! A Bandeira e o Hino foram criados, por pré-fundadores da 1ª República de 1910, entre os quais existiam muitos elementos da esquerda.

De qualquer modo, tudo na vida tem símbolos que diferenciam umas coisas das outras, como os grupos desportivos, as marcas de carros, as divisas dos militares, as organizações políticas com as suas bandeiras e hinos, etc.
«-- Detalhe de um cartaz da UDP-1975: Marchando, à sombra da bandeira, símbolos e slogans.


g) Valeu a pena o 25 de Abril?

Primeiro passemos a palavra ao site, www.25abril.org. (texto reconfirmado em 10/5/2006)
«Em 25 de Abril de 1974 o Movimento das Forças Armadas (MFA) derrubou o regime de ditadura que durante 48 anos oprimiu o Povo Português. Nessa madrugada do dia inicial, inteiro e limpo (como poetizou Sophia de Mello Breyner) os militares de Abril foram claros nas suas promessas: terminara a repressão, regressara a Liberdade, vinha aí o fim da guerra e do colonialismo, vinha aí a democracia. Com tudo isso, a Revolução dos Cravos pôs fim ao isolacionismo a que Portugal estava condenado há já vários anos e ajudou ao nascimento de novos países independentes. Constituindo-se o movimento pioneiro de enormes transformações democráticas em todo o mundo e demonstrando que as Forças Armadas não estão condenadas a ser um instrumento de opressão, podendo, pelo contrário, ser um elemento libertador dos povos. Democratizar, Descolonizar e Desenvolver foi o lema que então fez regressar Portugal ao fórum das nações livres e amantes da paz.
Ao cumprir todas as suas promessas, os capitães de Abril transformaram o seu acto libertador numa acção única na História da Humanidade. Disso se orgulham, nisso se revêem.»
... Coronel Vasco Lourenço.

Usando palavras mais modestas: Hoje vive-se num regime democrático, com liberdade de expressão de pensamento (Contudo é rotulado de fascista quem não diga mal de Salazar e de Caetano, ou quem critique objectivamente o 25 de Abril), a mulher e as crianças estão livres de condicionamentos sociais e «morais», a constituição garante o direito a qualquer cidadão ao estudo, às instituições de saúde, ao trabalho e à habitação, e as diferentes correntes religiosas são bem toleradas. Os trabalhadores têm  benefícios laborais substanciais, há o direito à greve, há um salário mínimo razoável e outros benefícios sociais. As leis do casamento e do divórcio tornaram-se mais liberais, e está na forja mexidas na lei do aborto.

A mortalidade infantil, durante o primeiro ano de vida, em Portugal diminuiu 10 vezes nestes últimos 30 anos, passando de 40 mortes (1975) para 4 (2005) por mil crianças, sendo menor que a média Europeia, e a mortalidade perinatal (que ocorre a partir das 28 semanas de gestação e até uma semana depois do parto) também registou uma diminuição significativa, passando de 32 para cinco casos por cada mil nados-vivos.

Mas afirmar que tudo isto se deve ao 25 de Abril é um exagero e propaganda política. Portugal não podia estagnar no tempo, e teria naturalmente seguido o vento de mudança que varreu a Europa, após a 2ª Grande Guerra, e as necessárias alterações sociais, políticas e económicas acabariam por surgir, mais cedo ou mais tarde.
Caetano foi um político mais moderado que Salazar e ele (ou o seu sucessor) teria, por legislação e sem recorrer à força, gerado um 25 de Abril bem mais cor de rosa e frutuoso que o vermelho da Revolução dos Cravos, já que ele tinha a perfeita noção da onda crescente de oposição ao seu regime (por populares, intelectuais e militares) e que não tinha outra opção senão mudar a bem uma situação que caminhava rapidamente para um desastre.
Assim como foi a liberalização política do rei D. Manuel II que levou à sua deposição, também foi a maior liberdade política dada por Caetano que levou à sua queda: apesar de várias tentativas, não foi possível um 25 de Abril sob o regime, fortemente controlado e disciplinado, de Salazar.
Nota: Marcelo Caetano nasceu em Lisboa a 17 de Agosto de 1906. Doutorado em Direito, investigador, professor, e autor de vários livros que ainda hoje são utilizados nas universidades portuguesas, substituiu Salazar em 27 de Setembro de 1968, tendo sido afastado do poder pela Revolução dos Cravos. Exilou-se no Brasil (São Paulo) em Maio de 1974. Nunca regressou a Portugal, tendo morrido no Rio de Janeiro em 26 de Outubro de 1980. Por altura da comemoração do centenário do seu nascimento, na Basílica da Estrela em Lisboa, de entre os vários elogios que lhe foram tecidos pode destacar-se o que foi proferido por Ramalho Eanes (Ex-Presidente): «Foi um homem que, pertencendo ao Estado Novo, tinha um pensamento próprio, independente de Salazar. O seu único erro foi este: desenhou uma estratégia e não teve tempo para a cumprir. Precisava de tempo e em política não se dá nada a ninguém»

«Tudo vale a pena, se a alma não é pequena», reza um adágio português. Se assim é, então o 25 de Abril só não valeu a pena se se não tiver a coragem, e a honestidade, de reconhecer que foram cometidos graves atropelos à democracia e erros durante os anos de gestão da Junta de Salvação Nacional.

O 25 de Abril antecipou, de alguns anos, a vinda da democracia portuguesa, mas tem de ser condenado:

1-  Pela anarquia destrutiva que manteve durante vários anos,  provocando o aparecimento de organizações criminosas militares como as famigeradas FP-25 (que cometeram roubos à mão armada, atentados, assassínios), pelo desastrado Gonçalvismo,  as ondas de nacionalização de Bancos, expropriações de empresas particulares e multinacionais, ocupações de herdades e casas, assaltos e roubos de bens privados, prisões injustas de empresários e «reaccionários», nacionalização e uso abusivo e ditatorial dos meios de comunicação, por exemplo pelo terrorismo do MDLP e da FLAMA (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, fundada em 1975  e extinta em 1979, e seguindo o lema, segundo o pronunciou Alberto João Jardim, de que "O terrorismo de Estado totalitário combate-se com o terrorismo democrático. O país está nas mãos de uma ditadura totalitária, a do Partido Comunista"), etc.

2-  Porque, durante o PREC, e parafraseando Spínola « ... sob a bandeira de uma falsa liberdade, estão preparando novas formas de escravidão», referindo-se às manobras sub-reptícias das forças da esquerda tentando tomar o poder.
3- Porque, por altura da tomada de posse do 1º Governo Constitucional o país estava de rastos, com «...ânimos exaltados, desemprego crescente, estagnação económica com a indústria e a agricultura moribundas, inflação descontrolada, debandada dos quadros e dos capitais, aumento desordenado das despesas públicas, colocação das clientelas, recurso constante ao crédito externo ...» 
4- Pela ênfase exagerada dado ao direito à liberdade individual que, esticada ao máximo, levou à rotura do bom senso e à prostituição de valores aceitáveis de ética e civismo; pelo excesso de liberdade, irresponsável, dada às crianças que adquiriram direitos e regalias de adultos sem contrapartida de deveres; pela perda de autoridade dos professores e das escolas; pela ideia que os salários podem subir sem que sejam compensados por um aumento de produtividade, etc.
5- Pela catástrofe de Timor e pela apressada independência dada às colónias, de uma maneira não transparente, sem consultar as respectivas populações, com o resultado que se viu: Instabilidade política, fome, regresso às doenças, guerra civil, e um nacionalismo desnecessariamente exacerbado, que só aos governantes beneficiou, e lançou esses novos estados numa situação antidemocrática e de pobreza como nunca tinham conhecido sob o domínio «fascista» português.

Há uma diferença fundamental entre Salazar e Cunhal: Aquele foi um português que pôs sempre em primeiro lugar o nome e os interesses de Portugal, enquanto que o segundo foi um "cidadão" do Partido Comunista Internacional pondo em primeiro lugar os interesses da URSS, embora tentasse a todo o custo transmitir a ideia que o PCP era uma realidade patrioticamente portuguesa como, por exemplo, que sobrevivia à custa de donativos dos seus partidários nacionais e não de apoios financeiro de Moscovo. A queda do Muro de Berlim e da influência da URSS veio demonstrar o contrário com a grave crise financeira que tais factos desencadearam no PCP.

Mas há semelhanças entre estes dois homens: Ambos eram contra eleições livres. De Salazar já se falou. Cunhal fez tudo para evitar que se realizassem as primeiras eleições livres do 25 de Abril de 1976, e conseguiu que o MRPP, o PDC e a AOC não fossem autorizados a concorrer, pois apercebeu-se que o PCP  não tinha suficiente apoio popular, e tinha as suas razões: Nestas eleições o PCP obteve 12.5% dos votos contra 37,9% do PS e 26,4% do PPD.

Ambos não hesitaram em recorrer a meios deploráveis para atingirem os seus fins, mas com uma grande diferença: os meios de repressão do Estado Novo lamentavelmente causaram dezenas de mortos de entre várias centenas de presos políticos, enquanto que os meios de repressão do modelo idolatrado por Cunhal causaram centenas de milhar de mortos de entre milhões de presos políticos, e pode ler-se no livro Foi assim, escrito por Zita Seabra, uma ex-militante de relevo do PCP, que Cunhal disse numa reunião plenária: "Somos contra a pena de morte, agora, neste regime, mas se estivéssemos no poder e pusessem em perigo o regime socialistas, não haveria outro remédio".

O turbilhão dos dois anos que se seguiram ao 25 de Abril prova que não havia uma frente comum de oposição ao governo «fascista» chefiada incondicionalmente pelo PCP, mas sim uma multiplicidade de interesses políticos antagónicos, um puzzle em que o PCP manipulou as forças de oposição mas em que também foi manipulado e usado por elas.

A história do 25 de Abril, mais isenta de coloração partidária, só daqui a algumas década será escrita. Atente-se nestas linhas que se podem ler no prefácio da «Breve História de Portugal» (edição de 1995), do historiador A. H. de Oliveira Marques:

«Julgou-se preferível pôr ponto final (nesta edição) na revolução de 25 de Abril de 1974. Os últimos 20 anos, vividos pela maioria dos potenciais leitores, não permitem ainda a serenidade nem a profundidade suficientes para haver verdadeira história...»

Enquanto esse dia não chega, compare-se o após 25 de Abril, com o após Revolução Bolchevique (Russa) de Lenine e Trotsky. É extraordinária a semelhança!

Revolução Bolchevique, Outubro de 1917 Revolução dos Cravos, Abril de 1974
- A paz imediata (Tratado de Brest- Litovsk)
- Distribuição da terra pelos camponeses
- Controlo de fábricas pelos trabalhadores
- O Povo é quem manda (Ditadura do proletariado)
- Fim da Guerra Colonial (Acordos de Argel, Lusaka, etc)
- Distribuição da terra pelos camponeses
- Controlo de fábricas pelos trabalhadores
- O Povo é quem manda (Ditadura do proletariado)



Um expressivo monumento comemorativo do 25 de Abril (Torres Novas)

Presidentes da República, após o 25 de Abril:
(Incrivelmente, há discordância quanto ao número de Presidentes da República que existiram, desde a Implantação da República até ao ano de 2005, com números em disputa que vão de 15 a 19).

A partir de 1974:
Junta de Salvação Nacional (1974 - 1976)  -  2 presidentes e 6 Governos provisórios em dois anos.

«» António Sebastião Ribeiro de Spínola - 15/5/1974 a 30/9/1974
«» Francisco da Costa Gomes - 30/9/1974 a 13/7/1976

III República (1976 - ...)
«» António dos Santos Ramalho Eanes - 14/7/1976 a 9/3/1986
«» Mário Alberto Nobre Lopes Soares - 9/3/1986 a 9/3/1996
«» Jorge Fernando Branco de Sampaio - 9/3/1996 a 9/3/2006
«» Aníbal Cavaco Silva - 9/3/2006 a ...

Resultado das Eleições Presidenciais de 22/01/2006
Aníbal Cavaco Silva (50,59%) «» Manuel Alegre (20,72%) «» Mário Soares (14.34%) «» Jerónimo da Sousa (8,59%) «» Francisco Louçã (5,31%) «» Garcia Pereira (0,44%). A abstenção foi de 37,39 %

Os poderes do Presidente: Comandante Supremo das Forças Armadas   «» Dissolver o Parlamento «» Nomear o Primeiro-Ministro e demitir o Governo «» Declarar o Estado de Sitio ou o Estado de Emergência «» Declarar a guerra e feitura da paz «» Dissolver os órgãos de governo próprio das regiões autónomas «»  Nomear os representantes da República nas Regiões Autónomas «» Promulgar as leis, decretos-lei e decretos regulamentares e a assinatura dos restantes decretos do Governo «» Convocar referendos «» Fiscalizar preventivamente a constitucionalidade das leis «» Ratificar tratados internacionais e assinar decretos e resoluções de acordos internacionais «» Nomear e exonerar  titulares de órgãos do Estado como o Procurador-geral da República.

Organização da Presidência da República: Tem 3 secções:
1- Serviços de gestão da Presidência, a cargo de um Conselho Administrativo e de uma Secretaria-Geral.
2- Comissão das comemorações do 10 de Junho, a nível nacional e internacional.
3 - Serviços de apoio directo ao Presidente da República, distribuído por 6 áreas:
Casa Civil «» Gabinete «» Casa Militar «» Serviço de Segurança «» Centro de Comunicações «» Apoio Médico.

Primeiros- Ministros:
Após o 25 de Abril houve 16 Primeiros-Ministros, desde  Adelino da Palma Carlos (16/5/1974 a 18/7/1974) a José Sócrates, que tomou posse em 12/3/2005.

NOTA: A 25 de Março de 2007 concluiu-se o programa "Os Grandes Portugueses" lançado pela RTP em que os portugueses foram chamados a escolher os portugueses que mais se distinguiram, em várias aspectos positivos, na nossa história.
Os resultados finais da votação foram:
1º António de Oliveira Salazar - 41,0%
2º Álvaro Cunhal - 19,1%
3º Aristides de Sousa Mendes - 13,0%
4º D. Afonso Henriques - 12,4%
5º Luís de Camões - 4,0%
6º D. João II - 3,0%
7º Infante D. Henrique - 2,7%
8º Fernando Pessoa - 2,4%
9º Marquês de Pombal - 1,7%
10º Vasco da Gama - 0,7%

Nota: Álvaro Cunhal faleceu a 13 de Junho de 2005, desconfortado, pela certa, com a estagnação do seu partido e o desmoronar do império da URSS.

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Créditos:
Texto: Testemunhos de quem viveu a época Salazarista e a do 25 de Abril, de ambos os lados da barreira, e vários livros de história idóneos e da série «O 25 de abril».
Fotos e gravuras, com zonas seleccionadas e reduzidas em tamanho.
Criança no carrinho com cravo: clipart freeware
Cerco do Quartel do Carmo e da espingarda com cravo: Panfleto do MFA.
Manifestação do 1 de Maio: História de Portugal, J. H. Saraiva
Act 1607071024