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MAPUTO  -  LOURENÇO MARQUES - Página 1
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Mapa de Moçambique
Moçambique: As suas 10 províncias e capitais. (2005).

O Monte Binga, no Niassa, é o monte mais alto de Moçambique, elevando-se a 2436 metros.

Desde tempos remotos que a zona a que chamamos Moçambique foi povoada por gente enraizada à terra, por nómadas, e por conquistadores vindos de sítios longínquos, em busca das suas riquezas naturais e escravos. A história de Moçambique é demasiada longa, complexa e, frequentemente, obscura. Nestas páginas vão-se relatar alguns aspectos  do relacionamento de Moçambique com o seu colonizador Português.

Moçambique, situado na costa oriental do continente africano, foi uma antiga colónia portuguesa, mais tarde classificada Província Ultramarina. Tem fronteira com: Tanzânia, Zâmbia, Malawi, Zimbabué,  África do Sul, Suazilândia, o Oceano Índico, e o Lago Niassa

Pêro da Covilhã foi, em 1489,  o primeiro navegador português a chegar às costas de Moçambique, na época dos "Descobrimentos Marítimos Portugueses".

Vasco da Gama desembarca em Inhambane a 11/1/1498, chamando à região a Terra da Boa Gente. Onze dias depois chega a Quelimane onde coloca um Padrão de S. Rafael, e a 1 de Março borda a Ilha de Moçambique. Em 1502, desembarca por uma segunda vez  fundando uma feitoria na Ilha de Moçambique.

Moçambique surgiu, a partir do século XV,  como uma série de feitorias (entrepostos comerciais, por vezes também com funções militares e diplomáticas, que um governo estabelecia numa zona sob seu controlo), sobretudo em Sofala que, por esta altura, era uma zona muito importante, uma mescla de várias culturas e etnias locais e "importadas" (negros, turcos, árabes, indianos, chineses, etc.), um centro de  troca de várias mercadorias, escravatura, e do ouro extraído da região do Império de Monomotapa.

             Mapa de Maputo
Moçambique, na costa oriental de África.
A zona da Baia do Maputo era  referenciada  como De Lagoa Bay (Baia da Lagoa) e já aparecia em mapas de 1502. Nota : Manjacaze (Mandlakaze ou Mandlakasi) também aparece escrita como Manjacase. Marracuene, já se chamou, nos tempos  coloniais, Vila Luisa.

Em 1505, Portugal estabelece mais feitorias, sob a direcção de Pero de Anhaia, como a de  Quiloa. Em 1507, Duarte de Melo  constrói um terceiro forte, com hospital e igreja, na Ilha de Moçambique, dando início ao estabelecimento do domínio português nesta zona, contra a forte resistência dos árabes muçulmanos, impedidos de transportar ouro, marfim e tecidos nos seus navios, e vendo o seu florescente negócio de escravatura ameaçado.

A vergonha do Triângulo da Escravatura:

É necessário repor esta verdade histórica: Não foram os Portugueses, nem outros "europeus", nem os árabes muçulmanos, que inventaram a escravatura em África, em geral, e muito menos em Moçambique. A escravatura em África foi inventada há muitos milhares de anos pelos nativos africanos.

Para mais detalhes clique em ESCRAVATURA.

Nota: Frequentemente confunde-se árabe com árabe muçulmano. Uma parte do antigo mundo tribal árabe começou a ser convertido à Lei Islâmica (Islão) a partir de 622 dC. por Maomé e seus sucessores, mas  apenas 10% dos muçulmanos são, hoje, árabes.

O Islão teve um início sangrento manchado por muitas lutas fratricidas, tem «seitas» que foram surgindo após a morte de Maomé cuja intolerância está ainda hoje bem patente, por exemplo, na explosiva relação entre Sunitas e Xiitas no Iraque. Continua a ser  a religião de mais rápida expansão, mas há árabes professando  todas as correntes religiosas, incluindo o cristianismo.

O Islão tem profundas raízes no Judaísmo, e algumas no Cristianismo. A essas raízes, Maomé  juntou regras sociais específicas ao bom funcionamento do antigo mundo árabe.
 
A Lei Islâmica está compilada num livro sagrado, o Corão ou Alcorão, que só foi concluído ao tempo do terceiro sucessor de Maomé, mas algumas «seitas» islâmicas acusam outras de terem inserido texto que não vieram da boca do Profeta. O livro Suna também faz parte dos livros sagrados de muitos muçulmanos.

Noé, Abraão, (daí o termo religiões Abraâmicas) Moisés e Jesus, são aceites no Islão como profetas (mensageiros de Deus que revelavam ensinamentos sagrados), e até a Virgem Maria é respeitada. No Corão, judeus e cristãos são referidos como «o povo do livro», embora sejam severamente criticados pelos «atropelos» que teriam feito à verdade que lhes fora revelada por Deus.

Para mais detalhes, ver tópico:
O confronto entre Judaísmo, Cristianismo e Islão.



Selo emitido em 1981

O ouro branco:
O selo à direita, mostra quão importante o tráfico de marfim  foi para Moçambique, e o selo à esquerda reafirma que o elefante continua a ser um animal importante na sua cultura.

A caça ao elefante, mais pelas presas do que pela carne, tornou-se num desporto e num rendoso negócio, levando à matança indiscriminada destes animais que várias vezes levaram a melhor, derrubando com a tromba e presas os caçadores desprevenidos e, de seguida, esmagando-os com as patas.
Moçambique tem um  património faunístico muito rico, e os elefantes fazem parte do pacote de safaris de caça grossa dos " 5 Grandes": Elefante, rinoceronte, búfalo, leopardo, e leão. (The Big Five, na gíria de caça dos ingleses). Destes 5 animais, os caçadores consideram o búfalo o mais perigoso, mas um facto curioso é que mais indígenas são mortos por hipopótamos, do que por qualquer outra "fera".

Os 5 Grandes - The big five
 «Os Cinco Grandes»          «The Big Five»

Num  hipopótamo adulto, os dente caninos do maxilar inferior podem ser enormes como se vê na figura  e os dois longos incisivos centrais apontam para a frente como lanças. Nas lutas entre hipopótamos, estes dentes podem causar sérios ferimentos.

 Boca de hipopótamo   Hipo mouth
Boca de hipopótamo
Hipo mouth
Foto:
www.geocities.com/Vila_luisa/


Hipopótamo e a sua enorme boca
The hipo, "the big mouth"
Os ataques de hipopótamos a pessoas dão-se geralmente nas proximidades das margens dos rios e a pequenas embarcações, afundando-as e trucidando os seus ocupantes. O homem é quase o seu único predador, já que apenas um conjunto de leões consegue matar um hipopótamo que se tenha aventurado, em busca de alimento, para longe da segurança do rio. Nota: O hipopótamo é maioritariamente herbívoro mas já foram vistos comendo carcaças não só de outros animais  (mas podem perseguir, matar, e comer pequenos animais), mas de outros hipopótamos. É um facto pouco conhecido que, já em 1608, o controverso e fantasioso Topsell escrevera um livro em que dizia que " ... o hipopótamo é uma fera feia e porca que vive no Nilo e alimenta-se de tudo o que consegue apanhar, incluindo crocodilos...".
Os machos são muito agressivos entre si e praticam infanticídio, matando crias da própria espécie.


Piroga
Uma piroga, podendo levar 5 pessoas, feita de um tronco escavado, e que requer grande perícia no seu uso, já que é manejada de pé, usando remos em pá, sem forqueta e sem tolete.
As pirogas Moçambicanas são pequenas canoas, estreitas, geralmente feitas de um tronco de árvore escavado a machado ou com fogo, de juncos amarrados ou mesmo de pele. 

À piroga também se chama, ocasionalmente, almadía ou armandia, termo de origem Berbere que foi arabizado (Al-ma'adia) e difundido pelos Portugueses na época de expansão, e significa barca de duas proas. O termo passou a definir outros tipos de embarcações, algumas de comprimento entre 20 a 30 metros,  de quilha pontiaguda e podendo ter velas.  Posteriormente passou a estar mais associado ao transporte de troncos de árvores, amarrados juntos, formando uma jangada que permitiu aos madeireiros o seu transporte rio abaixo. Em Burgui, na Navarra, uma pequena e bonita região autónoma em Espanha, são famosos os festejos do Dia da Almadia.

 
Antes de África ser invadida por estrangeiros, os seus povos indígenas caçavam animais, de pequeno e médio porte, mais para obterem carne para alimento e penas e peles para vestuário, ornamento, «cama» para dormir, construção de casas e pirogas, do que pelo macabro prazer de caçar por desporto, embora já usassem o marfim (elefante, hipopótamo, javali, etc) para artesanato, e com ossos e dentes fizessem colares e apetrechos  de feitiçaria.

Salvo raras excepções
, os animais selvagens só tendem a ser agressivos quando se sentem ameaçados pelo homem, ou o consideram um intruso no seu território, geralmente preferindo evitar o contacto com ele. Nos rios, um outro animal a respeitar é  o crocodilo (chega a atingir comprimentos superiores a 5 metros) que convive com o hipopótamo, com poucos conflitos entre eles, já que se agrupam em zonas separadas.

A caça de animais selvagens em Moçambique está controlada por lei, mas há muito caçador furtivo. As presas dos elefantes são exportadas  como matéria prima para o fabrico de ornamentos e ... carimbos! Os «chifres» do rinoceronte, que são um aglutinado denso de pelos, também são exportados para esses países devido à fama (totalmente infundada) de terem poderes afrodisíacos, e a pele dos felinos acaba transformada em tapetes de luxo.

Por que motivo Maputo, se chamou Lourenço Marques?

A baía onde se encontra hoje Maputo já fazia parte de mapas datados de 1502, e a cidade herdou o seu nome de Lourenço Marques, o primeiro navegador e piloto português a fazer um reconhecimento profundo em 1544 (Em Portugal reinava D. João III), da região ao sul conhecida pelos locais como Baía dos Mpfumos ou Baía dos Chefes, mais tarde conhecida pela Baía da Lagoa  (Delagoa Bay para os Ingleses), que se tornou palco de disputas e intrigas internacionais devido à sua localização estratégica, e que depois, entre outros nomes, foi chamada Baía de Lourenço Marques e ainda Baía do Espírito Santo. Após a independência, mudou para o nome mais nativo de Baía do Maputo.

O explorador Lourenço Marques, nas suas aventuras, estabeleceu contactos e acordos com os chefes locais, que permitiram criar bases de comércio e os fundamentos para a presença dos portugueses no sul de Moçambique.

(Para mais detalhes sobre os nomes Lourenço Marques e Maputo, clique nesta linha)

Em 1752, os portugueses desvincularam Moçambique, administrativamente, das "Índias Portuguesas" e instalaram um administrador autónomo. Em 1878/79, com as explorações de Serpa Pinto, tentaram unir Angola a Moçambique, sem sucesso, face à forte oposição inglesa.
Em 1720-21os Holandeses fundaram uma feitoria no Catembe (ca Tembe, terra dos Tembes), de onde foram expulsos.
Austríacos do aventureiro William Bolts ergueram, em 1777, uma feitoria no mesmo local para comércio de escravos, que é destruída em 1781 por uma expedição portuguesa vinda de Goa.

Para melhor controlo da situação, Joaquim de Araújo, o primeiro governador de L. M., estabelece em 1782, na margem esquerda da baía, onde existia uma feitoria holandesa e de onde depois nasce a cidade de L. M, um posto militar ou Presídio, que se vai transformando num forte (Fortaleza de N. Sª. da Conceição), acabado de construir em 1787. 

À direita, a reconstruída fortaleza  de NT. Sª. da Conceição, onde agora está instalado o Museu Histórico de Moçambique, e que foi um bastião defensivo nas "Guerras de Pacificação".

A árvore que se vislumbra e que fica à entrada da fortaleza, é uma relíquia, pois nela os guerreiros Vátuas  enforcaram em 1883, o capturado governador do Presídio, nome que era dado à fortaleza.

Em 1796 piratas franceses arrasaram o forte, mas acabaram por abandonar a zona, atacados por malária e outras doenças e, em 1799, os portugueses voltam a reconstruí-lo.


Our Lady of Conception's Fortress where it is installed the Mozambique Historical Museum
A 9 de Dezembro de 1857 (reinado de D Luís I) é criada a Câmara Municipal da povoação de L. M.

A área da margem direita da baía de L.M. foi palco de disputas territoriais por vários anos sobretudo com a Inglaterra que em 1861, querendo açambarcar todo o sul incluindo as ilhas de Inhaca e dos Elefantes, ali manda içar a bandeira inglesa, mas que os portugueses em 1870 retiram, expulsando os usurpadores.
Portugal concorda em submeter o problema de posse destas áreas à arbitragem do marechal Mac-Mahon, presidente da República Francesa, o qual em 24/7/1875 reconhece os direitos de Portugal sobre os territórios em disputa. 

Como reconhecimento por esta decisão, nasce em L. M. a Praça Mac-Mahon, apresentada na foto ao lado, com o prédio da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique (C.F.M.)ao fundo, com parte da estátua comemorativa à esquerda.
Nota: A Estação dos Caminhos de Ferro foi construída em 1910 sob desenho de Gustave Eiffel
Outros acordos fronteiriços foram os de 1886 e 1890 que fixaram as fronteiras com as possessões alemãs, e os de 1891 e 1893 com as possessões britânicas.

    Mac-Mahon' Square  and Railway Station
Em 1876 L. M passa a ter estatuto de Vila e, a 10 de Novembro de 1887 (reinado de D. Luís I, seu patrono) é elevada à categoria de cidade.

No selo (ampliado) ao lado, comemorativo do centenário da fundação da cidade, a zona  entre a área arborizada e a cidade era  semi-pantanosa
O Forte, ou Presídio, é a construção quadrada que se destaca isolada à beira rio e, à sua frente, a zona arredondada é a Praça Picota.

Depois da descoberta de ouro em Witwatersrand, na África do Sul, L. M. inaugura em 1895 ligações ferroviárias com aquele país (contrato de construção da linha é estabelecido em 1883), torna-se um importante entreposto e, a partir de 1897/98 L. M. passa a ser a capital administrativa de Moçambique.

A guerra da "Pacificação de Moçambique"

As "Campanhas de Pacificação", como foram na altura chamadas as duras campanhas militares portuguesas, levaram à submissão dos povos indígenas de Moçambique que por um lado não aceitavam ser colonizados e, por outro lado, queriam tirar partido de querelas territoriais sobretudo entre Portugal e outros países colonizadores. 


"Centenário da fundação da cidade de Maputo"


"Porto de Lourenço Marques" e "Ilha de Moçambique"

Algumas destas campanhas foram desastres militares para os portugueses, chegando Lourenço Marques a ser atacada várias vezes, como sucedeu por exemplo em 1833 em que o governador do Forte Português (Presídio) foi capturado e enforcado pelos Vátuas e, depois, nas invasões de 1868 e de 1894.

No ataque de 14 de Outubro de 1894, as hostes indígenas, em grupos militares chamados mangas sob direcção dos chefes Matibejana, Maazul e Angundjuane, romperam as 3 linhas defensivas que a protegiam, sitiaram-na e saquearam-na, livrando-se Lourenço Marques da total destruição graças à intervenção dos barcos de guerra portugueses fundeados no seu porto que, bombardeando o sitiante, o forçou a retirar-se.

A Campanha de Gaza, no tempo do "Comissário Régio" António Enes, foi uma das últimas, da qual se destaca:
Caldas Xavier, vence os Vátuas na batalha de Marracuene, e...
A 28 de Dezembro de 1895 Mouzinho de Albuquerque, domina e prende Ngungunhane, o chefe (régulo) dos Vátuas mais conhecido entre os portugueses por Gungunhana, no seu quartel geral em Chaimite.

GUNGUNHANA, o "Leão de Gaza":

A ascensão de Gungunhana (Seu nome nativo era Mundagaz, era filho de Muzila, e nasceu em data incerta, entre 1850 e 1858) à chefia  do seu povo, em 1884, dá-se após mandar assassinar seu irmão Mafemane, legítimo herdeiro ao trono. É uma longa história de luta pelo poder, recheada de traições, começada pelos seus antecessores, de etnia Nguni, também chamados Vátuas e Aungunes, pelos portugueses, um ramo dos Zulus da África do Sul, fugindo da guerra civil na zona de sua origem. Os Nguni entraram pelo sul de Moçambique, dominaram os povos autóctones (Chopes, Tsongas, Vandas, Bitongs) que encontraram na área, e fundaram o  Império de Gaza, que ocupava áreas não só de Moçambique, mas também da Rodésia, e da África do Sul, tendo por capital Manjacaze.

Gungunhana, ao princípio colaborou com os portugueses, chegando a ser nomeado "coronel de segunda linha".
Instigado por forças estrangeiras que queriam dominar a região, rebelou-se, atacando colonos, tendo os seus guerreiros oposto forte resistência aos militares portugueses, mas foram batidos em vários recontros, esmagados pela superioridade do equipamento bélico dos portugueses que eram, por vezes, ajudados por tribos rivais aos Vátuas.

Encurralado perto de Manjacase entrega aos portugueses os régulos Maazal e Matibejane (que tinham entrado no ataque a Lourenço Marques) em vão tentando evitar ser atacado. Batido na batalha de Coolela e com Manjacase  tomada e incendiada pelos portugueses, Gungunhana, em desespero, refugiou-se em Chaimite seu couto e aldeia sagrada do Império de Gaza, um Kraal  fortificado, de cerca de 30 palhotas, protegido por uma paliçada espinhosa, como uma única abertura de menos de meio metro de largura.
 

Aí, oferece sacrifícios humanos ao avô e a outros antepassados em troca de protecção divina. Perante a intransigência de Mouzinho, Gungunhana  tenta-o apaziguar com a entrega, traiçoeira, do régulo tsonga Nwamatibyane, que se acolhera sob a sua protecção.

Mais tarde envia emissários com dádivas de libras em ouro, dentes de marfim, búfalos, e outros presentes valiosos, chegando mesmo a mandar o seu próprio filho Godide como negociador intermediário.

De nada lhe valeu este estratagema, acabando por ser aprisionado, praticamente sem resistência da parte dos seus 300 guerreiros armados de espingardas, por Mouzinho de Albuquerque a 28 de Dezembro de 1895, comandando uma força simbólica de 46 soldados, 2 oficiais e um médico, europeus, e alguns centenas de auxiliares indígenas, como a gravura ao lado ilustra. Notar habitação tipo palhota, dos indígenas ao tempo.

De seguida é deportado com 7 das suas mulheres favoritas (tinha 3 mulheres principais), e outros familiares incluindo o filho Godide, para Portugal, a bordo do vapor «África»  que fundeia, após uma difícil viagem de dois meses, na manhã de 13 de Março de 1896, no Tejo, frente a Cacilhas, ficando preso no Forte de Monsanto.

Captura de Gungunhana
Gungunhana aprisionadao  Gungunhana arrested

Mouzinho e Gungunhana
Mouzinho e Gungunhana


Em Portugal, Gungunhana é desumanamente humilhado e manuseado como troféu de caça preciosa  e, finalmente, desterrado para a Ilha Terceira, onde chega a 27 de Junho de 1896. Aí goza de uma certa liberdade e respeito, chegando a ser baptizado com o nome de Reynaldo Frederico Gungunhana. Morreu 11 anos depois, vitimado por uma hemorragia cerebral, a 23 de Dezembro de 1906, com a idade provável de 56 anos. Foi enterrado no cemitério de N. Sr.ª da Conceição, e em 15 de Junho de 1985 as suas supostas ossadas regressam a Moçambique, sendo aí considerado um heróico símbolo da resistência anticolonialista.

Para completar a «pacificação» de Moçambique foram necessárias outras campanhas militares, destacando-se a submissão dos Macololos por João de Azevedo Coutinho. Na realidade, no princípio do século XX ainda se desenrolavam campanhas de ocupação e de pacificação, que só terminaram com o fim da I Grande Guerra.

Quanto a Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, regressado a Portugal, acabou por ser nomeado Oficial-Mor da Casa Real e responsável pela educação do que teria sido o futuro rei de Portugal, o Príncipe D. Luís Filipe. Provavelmente desiludido, o homem considerado patrono da Cavalaria Portuguesa e que fora governador  e até Comissário Régio, posto equivalente a Vice-Rei, de Moçambique, suicida-se a 8 de Janeiro de  1902.
D. Carlos e seu filho, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, foram assassinados a 1 de Fevereiro de 1908.
A 4 de Abril de 1953 foi estreado no Monumental, em Lisboa, o filme Chaimite, rodado em Moçambique, do realizador Jorge Brum do Canto.

Nota: Chaimite era um lugar da circunscrição de Chibuto no antigo distrito de Lourenço Marques. Infelizmente, apesar de todos os esforços feitos pelo webmaster, não foi ainda possível encontrar um mapa em que tal local histórico esteja assinalado. De Manjacase a Chaimite era uma caminhada de cerca de três dias.

O selo ao lado ilustra "Um oficial de Sipaio, em 1807". O sipaio (sipai ou sipal) era uma espécie de polícia e tropa auxiliar, indígena, que obedecia às ordens de um seu superior europeu. É um termo que deriva do Persa, sipahi. Crê-se que foi uma categoria militar  criada pelos ingleses na Índia, que podia ter um subchefe não europeu.


Agrupamento de sipaios indígenas, e seu comandante europeu, no período colonial.
Crédito: Parte de uma foto, autor desconhecido, cortesia de Prof. Henrique Martins.  

Sipaio
"Oficial de Sipaio"

A dança dos nomes provinciais:

A divisão administrativa de Moçambique alterou-se ao longo do tempo, com províncias mudando de nome (assinaladas a cores) e de área abrangente. Notar que no mapa referenciado 1911-18 aparecem duas largas áreas com o nome de Companhia de Moçambique e  Companhia do Niassa, dois mini-Estados com fortes interesses comerciais, que as controlavam.


A Companhia de Moçambique foi fundada em 1888 por J.C.Paiva de Andrade, J.P.Oliveira Martins e outros, sobretudo para a exploração de minérios, tornando-se, mais tarde,  uma companhia majestática.

 A Companhia do Niassa, de natureza majestática,  administrou o norte a partir de 1897.

A região norte assinalada Lago, no mapa de 1947, mudou o nome para Niassa por decreto nº 39858 de 20/10/1954.

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A Grande Guerra, de 1914-1918:
(Este assunto transcende a finalidade deste site, pelo que apenas se pretende lembrar que Moçambique sofreu com esta, por envolvimento directo, e com a Segunda Guerra Mundial, pelas privações que indirectamente lhe causou, mas que não evitavam que os colonos moçambicanos enviassem periodicamente alimentos ( como arroz, açúcar, óleo), e roupas para os seus familiares mais carecidos em Portugal metropolitano).

Esta guerra ficará na história como sendo a primeira em que se envolveram muitas nações, se usou material bélico bastante poderoso, tecnologia electrónica relativamente avançada, bombardeamentos em massa em que localidades foram totalmente arrasadas levando a morte indiscriminada a dezenas de milhar de civis, espionagem e tácticas sofisticadas e se usou, em larga escala, a arma química e submarinos.

A Alemanha declarou guerra a Portugal em 9 de Março de 1916, como represália por Portugal ter enviado tropas para França, ajudando os Aliados na luta contra eles, mas iniciou as hostilidades muito antes, com um ataque ao posto de Maziúa, na fronteira do Rovuma, que destruiu, matando o chefe do posto e incendiando palhotas vizinhas.


Soldado  do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.), numa trincheira, durante esta guerra, com um «foguete S.O.S». 

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O Governador de Moçambique preparou a defesa do território, incluindo a chamada de tropa metropolitana e o uso de barcos de guerra como o cruzador Adamastor e a canhoneira Chaimite, em operações na foz do Rovuma.

Em Abril de 1916 o Corpo Expedicionário Português recupera Quionga, que tinha sido ocupada pelos alemães muito antes, em 1894 e, em 1917, dá-se a invasão Alemã da zona do Rovuma.

Os Alemães querendo alcançar Quelimane, atacam também a Zambézia mas são parados em Namacurra e impedidos de atravessar o rio Macuze.
Foi uma guerra instável, num constante ganha/perde, devido a erros  de julgamento da força e das intenções dos alemães, e a um certo desconhecimento no melhor uso de novas armas e tácticas militares, causando muitas mortes entre militares europeus e indígenas moçambicanos. Desenvolveu-se mais na fronteira norte de Moçambique em áreas adjacentes à África Oriental Alemã.

«A Guerra Ultramarina», ou «Guerra Colonial», ou «Guerra pela liberdade», a luta (final) indígena pela independência de Moçambique.
Nota: Devido à guerra psicológica, de  propaganda e de contrapropraganda, que se desenrolou antes, durante, e depois das Guerras Coloniais até aos dias de hoje para acusar, desculpar, enaltecer ou desvalorizar acções que se desenrolaram, ainda há factos obscuros e de descrição contraditória, consoante a fonte de informação a que se recorre, mesmo por testemunhas oculares desses acontecimentos. O leitor é aconselhado a fazer as suas próprias pesquisas no sentido de melhor ficar elucidado e pede-se que comunique ao WebMaster qualquer informação relevante que tenha a ver com os assuntos desta página. Obrigado.

A Frelimo, (Frente de Libertação de Moçambique) foi  fundada em 25 de Junho de 1962 em Accra, sob os auspícios do Presidente da Tanzânia,  Julinus Nyerere, resultando da fusão de 3 movimentos nacionalistas já existentes:
UDENAMO - União Democrática Nacional de Moçambique;
MANU - Mozambique African National Union (cópia da KANU, do Quénia?);
UNAMI - União Nacional Africana para Moçambique Independente.

O grito de liberdade, contra «o racismo, a opressão, o roubo de propriedade rural, o trabalho forçado ou mal pago, a exploração da riqueza moçambicana, as dificuldades de acesso ao ensino» (estima-se que 90% da população negra era analfabeta, o que a impedia de exercer cargos de importância), etc, teve origem pré-Frelimo, e começou a esboçar-se  já em Junho de 1953 pelo levantamento de Machanga.

Em 16/6/1960, houve a sublevação de Mueda, no planalto dos Macondes em Cabo Delgado, que acabou com a morte (Massacre de Mueda) de um número indeterminado de nativos (dependendo das fontes que se consultam são indicadas entre 600 a menos de 20 indivíduos mortos!) pelas autoridades portuguesas, e que teve como consequência os Macondes endureceram a sua resistência e terem-se tornado, nos anos1960's, nos maiores aliados da Frelimo.
(Ver http://www.macua.org/Quantos_Morreram_em_Mueda.htm)

A Frelimo, de ideologia marxista (mas ao mesmo tempo não querendo dar essa imagem internacionalmente o que explica o apoio que recebeu do ocidente, notoriamente da Fundação Ford - Ford Foundation), teve vários campos de treino, sendo um dos primeiros o criado na Tanzânia, em Bagamoyo, posteriormente transferido para Mpitmbi, significando Campo Novo ou New Camp.
Nachingwea foi o seu principal campo de treino  onde estiveram estacionados instrutores chineses, e tinha a possibilidade de acomodar centenas de homens. Outro importante campo foi o de Matchedje. Em 1963, os primeiros 50 quadros moçambicanos iniciaram o treino na Argélia.

A resistência anticolonial tornou-se mais estruturada  no decorrer de 1961 após a independência de Tanganica (Tanzânia de hoje), e a partir de 1963 (data de referência é 15/8/1964) começa a entrada em Moçambique de guerrilheiros, vindos da base de Mtwara, Tanzânia.
 
A 21/8/1964  foram disparados dois tiros de canhangulo, em Esposende (Cabo Delgado) contra um carro civil, não sendo atingidos quaisquer dos passageiros.
Em 24/8/1964, dá-se o brutal assassínio do Padre Daniels, quando se deslocava do Chai para Nangololo. Segundo algumas fontes, o Padre Daniels teria sido assassinado ao ter sido confundido com o chefe de posto do Chai, por viajar num Jipe idêntico ao do administrador.
Seguiram-se ataques esporádicos a domicílios e  lojas comerciais no "mato", isto é, contra alvos civis (soft targets), que mancharam a imagem da Frelimo.

Para os colonos moçambicanos é esta a data de começo da luta armada nativa, apelidada, à altura, de «acto terrorista».

A Frelimo desmentiu que tais ataques a alvos civis, tenham sido perpetradas por guerrilheiros sob seu controlo, acusando os guerrilheiros da Manu e Udenamo, (futuro Coreno), assegurando que não era uma organização terrorista mas um movimento pol
ítico e militar, de «libertação nacional» e, para ela, oficialmente, a sua campanha anticolonialista começou na noite de 24 para 25 de Setembro de 1964, com ataques de uns poucos guerrilheiros, chefiados por Alberto Chipande, na província de Cabo Delgado ao posto de Chai.

Num livro biográfico de SAMORA, pode ler-se: «A acção mais marcante  foi dirigida, em 25 de Setembro de 1964, contra um posto administrativo português na Vila do Chai, a norte de Macomia, perto do rio Messalo. Vários ataques foram realizados nessa mesma altura, mas o único caso devidamente relatado foi a operação contra o Chai, tudo levando a crer que os primeiros tiros da guerra foram disparados aí, resultando na morte do chefe do posto e de mais 6 portugueses», contudo, segundo testemunhas,
«Não morreu qualquer português nesse ataque, o chefe do posto não estava nesse dia no Chai, logo não podia ter morrido, tendo os atacantes fugido quando ouviram rajadas de metralhadora disparadas por um militar português.»
(Ve outros detalhes  emr: http://www.macua.org/chai25092003.htm)

O 25 de Setembro tornou-se  O Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique independente. Na página 2, desta série, está uma lista dos outros feriados moçambicanos.

Inicialmente as armas preferidas pelos guerrilheiros (os colonos chamavam-lhes «turras», abreviatura de terroristas) foram as catanas (grandes facas de lâmina comprida e larga, usadas para corte de mato e cana de açúcar, e como arma nativa de defesa na selva), zagaias, flechas e lanças, em emboscadas no «mato» (terra bravia geralmente de capim alto ou arvoredo serrado) e no assalto silencioso a povoados, sobretudo pela calada da noite ou alvorada. Possuíam também  carabinas de pequeno calibre e as famosas espingardas artesanais, os «canhangulos», sendo alguns muito rudimentares, consistindo num tubo de canalização amarrado a um pedaço de madeira e um sistema percussor pouco fiável, mas outros tinham uma construção muito apurada, parecendo-se com armas comerciais. Carregados, geralmente pela boca, com pregos e outros pedaços de metais tinham, a curta distância, um efeito devastador. Outros carregavam normalmente com cartuchos vulgares de caçadeiras comerciais.

Muito rapidamente as catanas e os canhangulos foram substituídas por minas terrestres, granadas  RPG-7, a espingarda automática Ak-47, metralhadoras ligeiras, pesadas, antiaéreas, mísseis Sam-7 (1974), morteiros, etc, sendo algum deste armamento mais eficaz do que o que era usado pelos portugueses. (Na página 2, desta série, encontram-se  fotos de algum deste armamento).

A 31de Março de 1965 a Frelimo recusa-se a participar numa  tentativa de formação de nova identidade para gestão de todas as forças de rebeldia moçambicana, provocando o aparecimento do Coremo, resultante do reagrupamento da Udenamo com a Manu. Com o decorrer do tempo o Coreno começou a desintegrar-se devido à deserção de muitos dos seus partidários para a Frelimo, acabando por desaparecer por volta de 1971.

As primeiras grandes ofensivas das forças portuguesas foram as Operação Águia e Nó Górdio, tendo por base  Mueda, e que decorreram respectivamente de 2/7/1965 a 6/9/1965 e de 1/7/1970 a 6/8/1970, mas as primeiras baixas das tropas regulares portuguesas dão-se a 16/11/1964 na região de Xilama, Cabo Delgado.

Em 1964 a Inglaterra concedeu a independência à Rodésia do Norte que se passou a chamar Zâmbia e à Niassalândia que mudou o nome para Malawi, mas recusou-se a dar a independência à Rodésia do Sul por esta «ser tutelada por um governo racistas minoritário de brancos que não aceitava eleições gerais com base no princípio de um homem, um voto - one man, one vote». Assim, a 11 de Novembro de 1965 Ian Smith declarou a independência unilateral da Rodésia do Sul (Zimbabué), e a ONU reagiu decretando um boicote político e sanções económicas, incluindo o embargo de combustíveis ao novo país, levando a Inglaterra a estabelecer um bloqueio naval ao porto da Beira para impedir a entrada de navios com mercadoria estratégica destinadas à Rodésia. Foi um bloqueio pouco efectivo, já que o porto de Lourenço Marques estava livre. Portugal tomou, oficialmente, uma posição neutra, mas sub-repticiamente ajudou, tanto quanto possível, o regime de Smith, que por seu lado ajudava o braço militar português na luta contra a Frelimo, sobretudo na área de Tete.

As minas anticarro e antipessoais, provocaram mortes e estropiados entre os militares portugueses e civis. Em Agosto de 1967, a Frelimo abate um avião militar T-6 (ver tópico «Aviação Militar nas Guerras coloniais) com fogo de metralhadora antiaérea, causando a morte do piloto. A 21 de Junho de 1969 um batelão com  121 militares portugueses afunda-se, por acidente, matando os seus  ocupantes, etc.

Um mistério por decifrar.

A 26 de Abril de 1971 o navio Angoche é encontrado à deriva na costa de Moçambique, sem vestígios dos seus 22 tripulantes e do seu único e não identificado passageiro, um mistério que persiste até aos dias de hoje.
Segundo um relatório preliminar, de um agente da PIDE:

«O navio Angoche levava material para a nossa Força Aérea, material sofisticado, essencialmente material explosivo, bombas para os aviões, etc, e creio que ia para Porto Amélia. Soubemos que o Angoche foi abordado em 23 de Abril de 1971 por um submarino da União Soviética e que os seus tripulantes foram levados para a Tanzânia, para a base central da Frelimo, Nachingwea  e, mais tarde, executados ... havia manchas de sangue em vários pontos do navio...  fala-se que houve oficiais da Marinha Portuguesa, hoje oficiais generais, que estariam envolvidos nisso».


Para adensar o mistério, o relatório oficial, detalhado e secreto, conservado na DGS-PIDE em Lisboa, desapareceu após o golpe militar Lisboeta de 25 de Abril de 1974.


 Um segredo bem guardado: O que se passou no Angoche? (Foto de um postal)

Foi uma luta dura, com graves excessos cometidos quer pelos militares portugueses quer pelos guerrilheiros da Frelimo. Nesta guerra o exército português chegou a recorrer a químicos fazendo pulverizações de lavras, para limitar o sustento da guerrilha como, por exemplo, o cultivo de mandioca e batata doce, e provocar a desfolha de vegetação e arvoredo, facilitando o acesso a objectivos militares, mas nunca usou tais químicos directamente contra populações.

Um  dos actos deploráveis imputados ao exército português foi o massacre de Wiryamu, ocorrido a 10 de Dezembro de 1972, no distrito de Tete. Segue-se uma transcrição de parte de um discurso por Mário Soares feito numa conferência na Universidade Mondlane, Maputo, em 23 de Junho de 2005: « Permitam-me que, antes, vos diga, porém, que me sinto muito ligado a Moçambique. Talvez ainda alguns dos presentes se lembrem do célebre "abraço de Lusaka" trocado entre o então ainda não Presidente de Moçambique, Samora Machel e eu próprio, ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo português (provisório, não tinha ainda havido eleições), saído da Revolução dos Cravos. Esse "abraço" (que ocorreu a 6 de Junho de 1974) marcou o início das negociações - em que participei activamente - que conduziram à independência, depois de mais de uma década de guerra, e que se caracterizaram por uma grande cordialidade e pelo desejo mútuo de chegarmos a um bom e rápido acordo, vantajoso para ambas as partes. Na verdade, como a FRELIMO sempre salientou, a "guerra colonial" não foi feita contra Portugal nem, muito menos ainda, contra o Povo Português, mas contra a ditadura colonialista de Salazar e Caetano que nos oprimia a ambos, portugueses e moçambicanos. Foi o que esse "abraço" simbolizou, por forma flagrante e inesperada. Essa solidariedade, num combate comum, vinha de longe. Não hesitei, por exemplo, quando me encontrava exilado, em França, (1973) em me deslocar a Londres para, ao lado dos Padres Brancos e, em especial, do Padre Hastings, denunciar publicamente o massacre de Wiryamu, ordenado pelo comando militar português, contra populações indefesas e inocentes moçambicanas. Não foi o único, infelizmente, como todos sabem». ... (Fundação Mário Soares). Ver http://www.fmsoares.pt/arquivo_biblioteca/mariosoares/textos/007/7.pdf .
Nota: Este foi outro acontecimento obscuro e polémico na medida em que as forças envolvidas no teatro de guerra (portuguesas e guerrilheiros)  se diziam inocentes e apontavam dedos aos adversários, como sendo os culpados. Uma grande dúvida é saber-se qual foi a intenção (aproveitamento político?) do massacre.

Atente-se nesta espantosa resposta que teria sido dada por um agente da Pide (Oscar Cardoso) quando entrevistado sobre o assunto:
« B.O.S: Teve acesso aos relatórios sobre Wiryamu?
O.C: Não conheço essa história. De resto, na província de Tete, que eu conheci bem, não existia nenhuma terra chamada Wiryamu. Nem existia em Moçambique nenhuma terra começada por W. Eu não gosto de falar sobre esses assuntos, numa guerra há sempre massacres... O que lhe posso dizer é que nas instruções das Forças Armadas, da PIDE e demais forças da ordem havia a preocupação de evitar os massacres. As instruções eram muito claras: não molestar a população, evitar todo e qualquer tipo de barbaridade, etc. Era exactamente o contrário do que sucedia nos manuais dos terroristas, que aterrorizavam a população.
É evidente que há sempre excepções. Um soldado, cansado de fazer a guerra, farto de ver os seus camaradas estropiados por minas, pode, às tantas, tomar tudo por igual e cometer um erro qualquer» ... (http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/025159.html)

Quando a guerra colonial eclodiu, o exército português estava mal preparado, com a única aparente vantagem de possuír aviões, carros de combate, artilharia e meios mecanizados de transporte militar, mas estes meios eram de utilidade  limitada face às condições do terreno. Para complicar mais a vida a Portugal, a guerra teve várias frentes, com revoltas em todas as colónias, obrigando a um enorme esforço financeiro (quase 40% do orçamento português tinha a ver com despesas do exército) e logístico, de provimento de tropa e material bélico, sobretudo com respeito a Angola e Guiné onde os guerrilheiros estavam muito bem equipados e organizados.

A Frelimo tinha a  vantagem duma forte e, teoricamente, legítima motivação, de conhecer bem o território e de ter um razoável apoio de parte das populações Macondes do Norte de Moçambique e, por exemplo, da Tanzânia (e inicialmente do Malawi) que, voluntariamente ou coagidas, lhes davam guarida, alimentação, guerreiros, auxílio financeiro, e informação logística, mas os Macuas, adversários tradicionais dos Macondes, pouco apoio voluntário deram à Frelimo.

Ao contrário do que se passou com os movimentos em S. Tomé e Príncipe, Guiné ou Angola, em que os elementos dos movimentos nacionalistas estavam muito ligados à cultura Portuguesa, em Moçambique grande parte dos elementos que se iriam fundir na Frelimo, nem português falavam, e só mais tarde começou a surgir entre eles um leque de «assimilados» e exilados.

Com o decorrer dos anos a actividade da Frelimo, no norte e centro norte de Moçambique, aumentou, mas sem ganhos militares significativos, assim como se acentuou a pressão internacional sobre Portugal e a propaganda antiguerra em Portugal, do então ilegal Partido Comunista Português e de outros elementos oposicionistas «democratas».
Estes factores de erosão conjugados com o conhecimento da existência de rendosos negócios de candonga (mercado negro), praticado por elementos bem posicionados no exército português, e rumores de encontros secretos entre portugueses da esquerda política e de responsáveis da Frelimo, desmotivaram secções das tropas metropolitanas.

Não só houve elementos da Frelimo que desertaram para o lado português, como houve militares portugueses que se passaram para o outro lado, e houve portugueses capturados de má fé. Por exemplo, no dia 1 de Agosto de 1974, uma companhia portuguesa estacionada no norte, em Omar, não se apercebendo das más intenções intenções da Frelimo, aparentemente amistosas, acaba por ser capturada e é conduzida prisioneira para a Tanzânia.
(Ver: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/09/1_de_agosto_de_.html)  (Ler parte do artigo)
Cautela:  Ao acederem a um site nunca aceitem descarregar (download) ou instalar um ficheiro «necessário para ligar ou ver correctamente o site» mesmo que assegurem que está livre de vírus, etc, com excepção de se necessitar o Flash Player, mas mesmo este deve de ser «sacado» (descarregado) gratuita e directamente do site da Adobe ou da Macromédia em http://www.macromedia.com/software/flash/about/. As ameaças da Internet não se limitam aos vírus!


No entanto, não se pode dizer que os portugueses estivessem a perder a guerra em Moçambique. Pelo contrário, tinham conseguido limitar a Frelimo a fazer emboscadas, e a ataques de guerrilha no mato e em áreas isoladas que, no entanto, perturbavam seriamente a vida normal nessas zonas, mas havia uma forte suspeita que a eficácia do soldado português estava a ser sabotada por militares da alta chefia (com vista a criarem o clima de desalento necessário ao desencadear do 25 de Abril), o que criou fricções entre os colonos do interior e os militares, acusados de os não protegerem convenientemente.

Em Moçambique houve mais feridos em combate e em desastres do que mortos, e muitos foram os militares portugueses que regressaram a Portugal sem nunca terem visto ou entrado em contacto com guerrilheiros da Frelimo.

O primeiro Presidente da FRELIMO foi o Dr. Eduardo Chivambo Mondlane, nascido em 1920 em Gaza, educado na África do Sul e nos Estados Unidos da América, e assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 na Tanzânia, quando abriu uma encomenda postal armadilhada, enviada da República Federal da Alemanha, ignorando-se se por elementos das forças militares portugueses ou se por elementos da Frelimo, oponentes de Mondlane.

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Nota1: A versão mais ou menos oficial é que Mondlane teria morrido na explosão ocorrida na sede da Frelimo em Dar-es-Salaam, mas há outra versão: «... Mondlane foi de facto assassinado por um livro-bomba, mas não no seu escritório. Antes, sim, na casa/restaurante de Betty King, que era secretária da esposa da vítima, Janet Mondlane, no Instituto Moçambicano, também em Dar-es-Salaam. O local onde pereceu era predilecto do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique nas horas de lazer ...»
Ver: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/eduardo_mondlan.html
Nota2:  Pode ler-se no site http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/025159.html:
« ... B.O.S: A PIDE teve alguma participação no assassínio de Eduardo Mondlane?
O.C
: A carta armadilhada que provocou a morte de Eduardo Mondlane foi preparada pelo Casimiro Monteiro, que era de facto um grande especialista em explosivos. Mas o Casimiro Monteiro não agiu sozinho, teve a colaboração do ...  (ver referido site). Portanto, esse trabalho foi feito com a própria Frelimo, que estava muito interessada em eliminar o Mondlane...»

Samora Machel, comandante das forças militares, sucede-o, como presidente da Frelimo e  responsável pela estrutura e eficácia das suas forças militares, com o apoio de Marcelino dos Santos e Uria Simango.

Com o golpe militar do 25 de Abril de 1974, em Portugal, de inspiração social-comunista, também chamada a "Revolução dos Cravos", a descolonização dos territórios ultramarinos foi iniciada.

A 18 de Maio de 1974
o Governo Português pede aos dirigentes da Frelimo que apresentem condições de paz, com vista a acabar com a guerra colonial naquele território e, como gesto de boa vontade, são libertados 440 presos políticos da penitenciária de Machava, em Moçambique.


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Selo (ampliado) comemorando o 10º aniversário
da morte de E. Mondlane.
Além da Ak-47, ilustrada no selo, a Frelimo dispunha
de outro material bélico, ligeiro e pesado.

Nota: Mondlane erradamente aparece em vários  círculos referenciado como sendo o fundador da Frelimo.
Como se referiu mais acima a Frelimo resultou da junção de três movimentos.
Após esta fusão, Mondlane, que era funcionário das Nações Unidas, foi então chamado para ocupar o posto de presidente do recém formado movimento.

Teoricamente, os actos bélicos acabam em Moçambique com o  Acordo de Lusaka de 7 de Setembro de 1974.

À direita está um selo "pomba de paz" comemorativo do acordo de Lusaka.
O  Presidente Kaunda, mentor do acordo visitou pela primeira vez Moçambique em 20/4/1976 e, por essa altura, nos selos foi sobreposta uma alusão a essa visita.

Este acordo origina uma revolta (7 a 17 de Setembro), em Lourenço Marques e Beira, por alguns portugueses e moçambicanos. A retaliação dos guerrilheiros da Frelimo e de seus apoiantes causou dezenas de mortes e grande destruição, gerando o pânico e o início do êxodo de milhares de residentes, para Portugal, África do Sul e Rodésia.

Esta tentativa de sublevação não só não teve o apoio da maioria da tropa regular portuguesa como, a partir de 10 de Setembro, esta tropa ajuda no transporte de militares da Frelimo, para que estas possam controlar pontos estratégicos de Moçambique e repor alguma ordem. Deve notar-se que essa precária colaboração, foi feita face ao reconhecimento do Alto Comando Militar de que não havia outra solução para controlar os sérios desacatos que se desenrolavam, uma vez que estava acordado a passagem de poder para a Frelimo, incluindo o de «manter a ordem» no território.

A 21 de Setembro de 1974 é então  formado um Governo de Transição tendo Joaquim Chissano por Primeiro Ministro, mas um mês depois, em Lourenço Marques, elementos armados da Frelimo envolvem-se em confrontos com comandos das forças militares portuguesas, do que resultam vários mortos

Este Governo de Transição conduziu os destinos de Moçambique até à sua independência a 25 de Junho de 1975.


Bandeira Nacional da República Popular de Moçambique
Mozambique National Flag
 

RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) surgiu em 1976, após a independência de Moçambique. Foi acusada de ter sido criada pelos serviços secretos Rodesianos, e de receber apoio logístico da África do Sul, com o fim de sabotar a Frelimo e as guerrilhas anti-Rodesianas com bases em Moçambique. Esta acusação foi refutada pela Renamo.

A Renamo, sob chefia de Afonso Dklakama, que começara por pertencer ao exército português, depois desertou para a Frelimo e depois abandonou-a e constituiu a Renamo, combateu a Frelimo até à assinatura do Acordo Geral de Paz, Roma, em 4 de Outubro de 1992,  com a comissão governamental chefiada por Armando Guebuza. 

Os primeiros contactos que conduziram ao acordo foram feitos em 1989 em Nairobi, seguido de um encontro secreto em  Sant’Egidio em Julho de 1990.

O Acordo de Paz abrange sete protocolos separados e quatro documentos correlativos, especificando a protecção dos direitos humanos básicos e das liberdades individuais e, entre outras directivas, a desmobilização dos dois exércitos  (que só ficaria completa dois anos depois), com a criação de um novo exército unificado, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique.

A Renamo é (ano 2005) o maior partido político da oposição.

Samora Moisés Machel, nascido a 29 de Setembro de 1933, em Xilembe, província de Gaza, e sucessor de Mondlane, foi nomeado o primeiro Presidente da República (tendo Joaquim Chissano por Primeiro Ministro), impondo um austero Estado Socialista de partido único, a Frelimo, e combatendo a Renamo. Estima-se que 250 000 pessoas tenham deixado Moçambique, por esta altura. 

Em 1982, tropas do Zimbabué são chamadas, para proteger oleodutos e linhas ferroviárias entre Mutare e a Beira dos ataques da Renamo, e permanecem até 1993.

Pouco antes da  sua morte, S. Machel, confrontado com uma economia decrépita e com os efeitos devastadores da guerra civil, inicia diálogo com a R.A.S. Pelo Acordo de Nkomati, a África do sul cessa o seu apoio à Renamo, e Moçambique cessa o apoio à ANC, a guerrilha nacionalista da África do Sul, o que criou um certo mal estar no núcleo duro da Frelimo.

Em 1985, um piloto militar da Frelimo, deserta para a África do Sul, levando consigo um Mig-17. (ver tópico «Aviação Militar nas Guerras coloniais)

Samora Machel morreu em 19 de Outubro de 1986 quando o avião em que viajava embateu numa montanha (falha humana, técnica, ou acidente provocado?) na  localidade sul-africana de Mbuzini (Mbuzine), relativamente perto da fronteira com Moçambique e Suazilândia, morrendo todos os seus tripulantes e passageiros.

Monumento em Mbuzini a Samora Machel
Monumento em Mbuzini (Mbuzine, em português) a Samora Machel.
Foto: www.mol.co.mz

O monumento em Mbuzini, construído em 1999, tem na zona à frente, uma plataforma em que estão ancorados 35 tubos de aço com cerca de 9 metros de altura, com fendas, de tamanho variado, em diferentes sítios. 

O vento actuando sobre eles transformam o sistema num instrumento sonoro eólico, cujo murmúrio musical depende da intensidade do vento. Por baixo da plataforma, sob os tubos, há um espaço vazio que serve de caixa de ressonância. O monumento parece ser uma enorme cunha penetrando o monte.

Este memorial foi projectado por Dr. José Forjaz , um arquitecto radicado em Moçambique.  (www.joseforjazarquitecto.com)

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