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Desde tempos remotos que a zona a que chamamos Moçambique foi povoada por gente enraizada à terra, por nómadas, e por conquistadores vindos de sítios longínquos, em busca das suas riquezas naturais e escravos. A história de Moçambique é demasiada longa, complexa e, frequentemente, obscura. Nestas páginas vão-se relatar alguns aspectos do relacionamento de Moçambique com o seu colonizador Português. Moçambique, situado na
costa oriental do continente
africano, foi uma antiga colónia portuguesa, mais tarde classificada
Província Ultramarina. Tem fronteira com: Tanzânia, Zâmbia, Malawi,
Zimbabué, África do Sul, Suazilândia, o Oceano Índico, e o Lago
Niassa Vasco
da Gama desembarca em Inhambane a 11/1/1498, chamando à região a
Terra da Boa Gente. Onze dias depois chega a Quelimane onde coloca um
Padrão de S. Rafael, e a 1 de Março borda a Ilha de Moçambique. Em 1502,
desembarca por uma segunda vez fundando uma
feitoria na Ilha de Moçambique. |
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Em 1505, Portugal estabelece mais feitorias, sob a direcção de Pero de Anhaia,
como a de Quiloa. Em
1507, Duarte de Melo constrói um terceiro forte, com hospital e igreja, na Ilha
de
Moçambique, dando início ao estabelecimento do domínio português
nesta zona, contra a forte resistência dos árabes muçulmanos, impedidos de
transportar ouro, marfim e tecidos nos seus navios, e vendo o seu
florescente negócio de escravatura ameaçado. Para mais detalhes clique em ESCRAVATURA. |
Nota:
Frequentemente confunde-se árabe com árabe muçulmano. Uma parte do antigo mundo tribal árabe
começou a ser convertido à Lei
Islâmica (Islão) a partir de 622 dC. por
Maomé e seus sucessores, mas apenas 10% dos muçulmanos são,
hoje, árabes. O Islão teve um início sangrento manchado por muitas lutas fratricidas, tem «seitas» que foram surgindo após a morte de Maomé cuja intolerância está ainda hoje bem patente, por exemplo, na explosiva relação entre Sunitas e Xiitas no Iraque. Continua a ser a religião de mais rápida expansão, mas há árabes professando todas as correntes religiosas, incluindo o cristianismo. O Islão tem profundas raízes no Judaísmo, e algumas no Cristianismo. A essas raízes, Maomé juntou regras sociais específicas ao bom funcionamento do antigo mundo árabe. A Lei Islâmica está compilada num livro sagrado, o Corão ou Alcorão, que só foi concluído ao tempo do terceiro sucessor de Maomé, mas algumas «seitas» islâmicas acusam outras de terem inserido texto que não vieram da boca do Profeta. O livro Suna também faz parte dos livros sagrados de muitos muçulmanos. Noé, Abraão, (daí o termo religiões Abraâmicas) Moisés e Jesus, são aceites no Islão como profetas (mensageiros de Deus que revelavam ensinamentos sagrados), e até a Virgem Maria é respeitada. No Corão, judeus e cristãos são referidos como «o povo do livro», embora sejam severamente criticados pelos «atropelos» que teriam feito à verdade que lhes fora revelada por Deus.
Para mais detalhes, ver tópico: |
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O ouro branco: O selo à direita, mostra quão importante o tráfico de marfim foi para Moçambique, e o selo à esquerda reafirma que o elefante continua a ser um animal importante na sua cultura. A caça ao elefante, mais pelas presas do que pela carne, tornou-se num desporto e num rendoso negócio, levando à matança indiscriminada destes animais que várias vezes levaram a melhor, derrubando com a tromba e presas os caçadores desprevenidos e, de seguida, esmagando-os com as patas. |
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| Moçambique tem um património
faunístico muito rico, e os elefantes fazem parte do pacote de safaris
de caça grossa dos
" 5 Grandes": Elefante,
rinoceronte, búfalo, leopardo, e leão. (The Big Five, na gíria de caça dos
ingleses). Destes 5 animais, os caçadores
consideram o búfalo o mais perigoso, mas um facto curioso é que mais indígenas são
mortos por hipopótamos, do que por qualquer outra
"fera".
Num hipopótamo adulto, os dente caninos do maxilar inferior podem ser enormes como se vê na figura e os dois longos incisivos centrais apontam para a frente como lanças. Nas lutas entre hipopótamos, estes dentes podem causar sérios ferimentos. |
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![]() Hipopótamo e a sua enorme boca The hipo, "the big mouth" |
Os ataques de hipopótamos a pessoas
dão-se geralmente nas proximidades das margens dos rios e a pequenas
embarcações,
afundando-as e trucidando os seus ocupantes. O homem é quase o seu único
predador, já que apenas um conjunto de leões consegue matar um
hipopótamo que se tenha aventurado, em busca de alimento, para longe da
segurança do rio. Nota: O
hipopótamo é maioritariamente herbívoro mas já foram vistos comendo
carcaças não só de outros animais (mas podem perseguir, matar, e
comer pequenos animais), mas de outros hipopótamos. É um facto pouco
conhecido que, já em 1608, o controverso e fantasioso Topsell escrevera
um livro em que dizia que " ... o hipopótamo é uma fera feia e porca que
vive no Nilo e alimenta-se de tudo o que consegue apanhar, incluindo
crocodilos...". Os machos são muito agressivos entre si e praticam infanticídio, matando crias da própria espécie. |
![]() Uma piroga, podendo levar 5 pessoas, feita de um tronco escavado, e que requer grande perícia no seu uso, já que é manejada de pé, usando remos em pá, sem forqueta e sem tolete. |
As pirogas Moçambicanas são pequenas canoas, estreitas, geralmente
feitas de um tronco de árvore escavado a machado ou com fogo,
de juncos amarrados ou mesmo de pele. À piroga também se chama, ocasionalmente, almadía ou armandia, termo de origem Berbere que foi arabizado (Al-ma'adia) e difundido pelos Portugueses na época de expansão, e significa barca de duas proas. O termo passou a definir outros tipos de embarcações, algumas de comprimento entre 20 a 30 metros, de quilha pontiaguda e podendo ter velas. Posteriormente passou a estar mais associado ao transporte de troncos de árvores, amarrados juntos, formando uma jangada que permitiu aos madeireiros o seu transporte rio abaixo. Em Burgui, na Navarra, uma pequena e bonita região autónoma em Espanha, são famosos os festejos do Dia da Almadia. |
| Antes de África ser invadida por estrangeiros, os seus povos indígenas caçavam animais, de pequeno e médio porte, mais para obterem carne para alimento e penas e peles para vestuário, ornamento, «cama» para dormir, construção de casas e pirogas, do que pelo macabro prazer de caçar por desporto, embora já usassem o marfim (elefante, hipopótamo, javali, etc) para artesanato, e com ossos e dentes fizessem colares e apetrechos de feitiçaria. Salvo raras excepções, os animais selvagens só tendem a ser agressivos quando se sentem ameaçados pelo homem, ou o consideram um intruso no seu território, geralmente preferindo evitar o contacto com ele. Nos rios, um outro animal a respeitar é o crocodilo (chega a atingir comprimentos superiores a 5 metros) que convive com o hipopótamo, com poucos conflitos entre eles, já que se agrupam em zonas separadas. A caça de animais selvagens em Moçambique está controlada por lei, mas há muito caçador furtivo. As presas dos elefantes são exportadas como matéria prima para o fabrico de ornamentos e ... carimbos! Os «chifres» do rinoceronte, que são um aglutinado denso de pelos, também são exportados para esses países devido à fama (totalmente infundada) de terem poderes afrodisíacos, e a pele dos felinos acaba transformada em tapetes de luxo. Por que motivo Maputo, se chamou Lourenço Marques? A baía onde se encontra
hoje Maputo já fazia parte de mapas datados de 1502, e a cidade herdou o seu nome
de Lourenço Marques, o primeiro navegador e piloto português a fazer
um reconhecimento profundo em 1544 (Em Portugal reinava D. João III), da região
ao sul conhecida pelos locais
como Baía dos Mpfumos ou Baía dos Chefes, mais tarde conhecida pela Baía
da Lagoa (Delagoa Bay para os Ingleses), que se tornou palco de disputas e intrigas
internacionais devido à sua localização estratégica, e que depois, entre
outros nomes, foi chamada Baía de Lourenço Marques e ainda Baía
do Espírito Santo. Após a independência, mudou para o nome
mais nativo de Baía do Maputo. (Para mais detalhes sobre os nomes Lourenço Marques e Maputo, clique nesta linha) Em 1752, os portugueses
desvincularam Moçambique, administrativamente, das "Índias
Portuguesas" e instalaram um administrador autónomo. Em 1878/79, com
as explorações de Serpa Pinto, tentaram unir Angola a Moçambique, sem
sucesso, face à forte oposição inglesa.
Para melhor controlo da situação, Joaquim de Araújo, o primeiro governador de L. M., estabelece em 1782, na margem esquerda da baía, onde existia uma feitoria holandesa e de onde depois nasce a cidade de L. M, um posto militar ou Presídio, que se vai transformando num forte (Fortaleza de N. Sª. da Conceição), acabado de construir em 1787. |
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À direita, a reconstruída fortaleza
de NT. Sª. da Conceição, onde agora está instalado
o Museu Histórico de Moçambique, e que foi um bastião defensivo nas "Guerras
de Pacificação".
Em 1796 piratas franceses arrasaram o forte, mas acabaram por abandonar a zona, atacados por malária e outras doenças e, em 1799, os portugueses voltam a reconstruí-lo. |
![]() Our Lady of Conception's Fortress where it is installed the Mozambique Historical Museum |
| A 9 de Dezembro de 1857
(reinado de D Luís I) é criada a Câmara Municipal da povoação de
L. M. A área da margem direita da baía de L.M. foi palco de disputas territoriais por vários anos sobretudo com a Inglaterra que em 1861, querendo açambarcar todo o sul incluindo as ilhas de Inhaca e dos Elefantes, ali manda içar a bandeira inglesa, mas que os portugueses em 1870 retiram, expulsando os usurpadores. |
| Portugal concorda em
submeter o problema de posse destas áreas à arbitragem do marechal Mac-Mahon,
presidente da República Francesa, o qual em 24/7/1875 reconhece os
direitos de Portugal sobre os territórios em disputa. Como reconhecimento por esta decisão, nasce em L. M. a Praça Mac-Mahon, apresentada na foto ao lado, com o prédio da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique (C.F.M.)ao fundo, com parte da estátua comemorativa à esquerda. Nota: A Estação dos Caminhos de Ferro foi construída em 1910 sob desenho de Gustave Eiffel Outros acordos fronteiriços foram os de 1886 e 1890 que fixaram as fronteiras com as possessões alemãs, e os de 1891 e 1893 com as possessões britânicas. |
![]() Mac-Mahon' Square and Railway Station |
| Em 1876 L. M passa a ter estatuto de Vila e,
a 10 de Novembro de 1887
(reinado de D. Luís I, seu patrono) é elevada à categoria de cidade. No selo (ampliado) ao lado, comemorativo do centenário da fundação da cidade, a zona entre a área arborizada e a cidade era semi-pantanosa O Forte, ou Presídio, é a construção quadrada que se destaca isolada à beira rio e, à sua frente, a zona arredondada é a Praça Picota. Depois da descoberta de ouro em Witwatersrand, na África do Sul, L. M. inaugura em 1895 ligações ferroviárias com aquele país (contrato de construção da linha é estabelecido em 1883), torna-se um importante entreposto e, a partir de 1897/98 L. M. passa a ser a capital administrativa de Moçambique.
A guerra da "Pacificação de Moçambique" |
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Algumas destas campanhas foram desastres militares para os portugueses, chegando Lourenço Marques a ser atacada várias vezes, como sucedeu por exemplo em 1833 em que o governador do Forte Português (Presídio) foi capturado e enforcado pelos Vátuas e, depois, nas invasões de 1868 e de 1894. No ataque de 14 de Outubro de 1894, as hostes indígenas, em grupos militares chamados mangas sob direcção dos chefes Matibejana, Maazul e Angundjuane, romperam as 3 linhas defensivas que a protegiam, sitiaram-na e saquearam-na, livrando-se Lourenço Marques da total destruição graças à intervenção dos barcos de guerra portugueses fundeados no seu porto que, bombardeando o sitiante, o forçou a retirar-se. A Campanha de
Gaza, no tempo do "Comissário Régio" António
Enes,
foi uma das últimas, da qual se destaca: GUNGUNHANA, o
"Leão de Gaza": Gungunhana, ao
princípio colaborou com os portugueses, chegando a ser nomeado "coronel de
segunda linha". |
| Aí, oferece sacrifícios humanos ao avô e a outros antepassados em troca de
protecção divina.
Perante a intransigência de Mouzinho, Gungunhana tenta-o apaziguar com
a entrega, traiçoeira, do régulo tsonga Nwamatibyane, que se acolhera sob a sua
protecção. Mais tarde envia emissários com dádivas de libras em ouro, dentes de marfim, búfalos, e outros presentes valiosos, chegando mesmo a mandar o seu próprio filho Godide como negociador intermediário. De nada lhe valeu este estratagema, acabando por ser aprisionado, praticamente sem resistência da parte dos seus 300 guerreiros armados de espingardas, por Mouzinho de Albuquerque a 28 de Dezembro de 1895, comandando uma força simbólica de 46 soldados, 2 oficiais e um médico, europeus, e alguns centenas de auxiliares indígenas, como a gravura ao lado ilustra. Notar habitação tipo palhota, dos indígenas ao tempo. De seguida é deportado com 7 das suas mulheres favoritas (tinha 3 mulheres principais), e outros familiares incluindo o filho Godide, para Portugal, a bordo do vapor «África» que fundeia, após uma difícil viagem de dois meses, na manhã de 13 de Março de 1896, no Tejo, frente a Cacilhas, ficando preso no Forte de Monsanto. |
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Para completar a «pacificação» de Moçambique foram necessárias outras campanhas militares, destacando-se a submissão dos Macololos por João de Azevedo Coutinho. Na realidade, no princípio do século XX ainda se desenrolavam campanhas de ocupação e de pacificação, que só terminaram com o fim da I Grande Guerra. Quanto a Joaquim Augusto
Mouzinho de Albuquerque, regressado
a Portugal, acabou por ser nomeado Oficial-Mor da Casa Real e
responsável pela educação do que teria sido o futuro rei de Portugal,
o Príncipe D. Luís Filipe. Provavelmente desiludido, o homem considerado
patrono da Cavalaria Portuguesa e que fora governador e até
Comissário Régio, posto equivalente a Vice-Rei, de Moçambique,
suicida-se a 8 de Janeiro de 1902. Nota: Chaimite era um lugar da circunscrição de Chibuto no antigo distrito de Lourenço Marques. Infelizmente, apesar de todos os esforços feitos pelo webmaster, não foi ainda possível encontrar um mapa em que tal local histórico esteja assinalado. De Manjacase a Chaimite era uma caminhada de cerca de três dias. |
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O selo ao lado ilustra "Um oficial de Sipaio, em 1807". O sipaio (sipai ou sipal) era uma espécie de polícia e tropa auxiliar, indígena, que obedecia às ordens de um seu superior europeu. É um termo que deriva do Persa, sipahi. Crê-se que foi uma categoria militar criada pelos ingleses na Índia, que podia ter um subchefe não europeu.
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A dança dos nomes provinciais: A divisão administrativa de Moçambique alterou-se ao longo do tempo, com províncias mudando de nome (assinaladas a cores) e de área abrangente. Notar que no mapa referenciado 1911-18 aparecem duas largas áreas com o nome de Companhia de Moçambique e Companhia do Niassa, dois mini-Estados com fortes interesses comerciais, que as controlavam. |
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A Companhia de Moçambique foi fundada em 1888 por J.C.Paiva de Andrade, J.P.Oliveira Martins e outros, sobretudo para a exploração de minérios, tornando-se, mais tarde, uma companhia majestática. A
Companhia do Niassa, de natureza majestática, administrou o norte
a partir de 1897. |
| . A Grande Guerra, de 1914-1918: (Este assunto transcende a finalidade deste site, pelo que apenas se pretende lembrar que Moçambique sofreu com esta, por envolvimento directo, e com a Segunda Guerra Mundial, pelas privações que indirectamente lhe causou, mas que não evitavam que os colonos moçambicanos enviassem periodicamente alimentos ( como arroz, açúcar, óleo), e roupas para os seus familiares mais carecidos em Portugal metropolitano). Esta guerra ficará na história como sendo a primeira em que se envolveram muitas nações, se usou material bélico bastante poderoso, tecnologia electrónica relativamente avançada, bombardeamentos em massa em que localidades foram totalmente arrasadas levando a morte indiscriminada a dezenas de milhar de civis, espionagem e tácticas sofisticadas e se usou, em larga escala, a arma química e submarinos. A Alemanha declarou guerra a Portugal em 9 de Março de 1916, como represália por Portugal ter enviado tropas para França, ajudando os Aliados na luta contra eles, mas iniciou as hostilidades muito antes, com um ataque ao posto de Maziúa, na fronteira do Rovuma, que destruiu, matando o chefe do posto e incendiando palhotas vizinhas. |
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. «A Guerra Ultramarina», ou
«Guerra Colonial», ou «Guerra pela liberdade», a luta (final) indígena pela independência de
Moçambique. O grito de liberdade, contra «o racismo, a opressão, o roubo de propriedade rural, o trabalho
forçado ou mal pago, a exploração da riqueza moçambicana, as
dificuldades de acesso ao ensino» (estima-se que 90% da população negra
era analfabeta, o que a impedia de exercer cargos de importância), etc, teve origem pré-Frelimo, e começou a esboçar-se já em Junho de 1953 pelo levantamento
de Machanga. A Frelimo, de ideologia marxista (mas ao
mesmo tempo não querendo dar essa imagem internacionalmente o que explica o
apoio que recebeu do ocidente, notoriamente da Fundação Ford - Ford
Foundation), teve vários campos de treino,
sendo um dos primeiros o criado na
Tanzânia, em Bagamoyo, posteriormente transferido para Mpitmbi,
significando Campo Novo ou New Camp. A resistência anticolonial tornou-se mais
estruturada
no decorrer de 1961 após a
independência de Tanganica (Tanzânia de hoje), e a partir de 1963
(data de referência é 15/8/1964) começa a entrada em Moçambique de
guerrilheiros, vindos
da base de Mtwara, Tanzânia. O 25 de Setembro tornou-se O Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique independente. Na página 2, desta série, está uma lista dos outros feriados moçambicanos. Inicialmente as armas preferidas pelos guerrilheiros (os colonos chamavam-lhes «turras», abreviatura de terroristas) foram as catanas (grandes facas de lâmina comprida e larga, usadas para corte de mato e cana de açúcar, e como arma nativa de defesa na selva), zagaias, flechas e lanças, em emboscadas no «mato» (terra bravia geralmente de capim alto ou arvoredo serrado) e no assalto silencioso a povoados, sobretudo pela calada da noite ou alvorada. Possuíam também carabinas de pequeno calibre e as famosas espingardas artesanais, os «canhangulos», sendo alguns muito rudimentares, consistindo num tubo de canalização amarrado a um pedaço de madeira e um sistema percussor pouco fiável, mas outros tinham uma construção muito apurada, parecendo-se com armas comerciais. Carregados, geralmente pela boca, com pregos e outros pedaços de metais tinham, a curta distância, um efeito devastador. Outros carregavam normalmente com cartuchos vulgares de caçadeiras comerciais. Muito rapidamente as catanas e os canhangulos foram substituídas por minas terrestres, granadas RPG-7, a espingarda automática Ak-47, metralhadoras ligeiras, pesadas, antiaéreas, mísseis Sam-7 (1974), morteiros, etc, sendo algum deste armamento mais eficaz do que o que era usado pelos portugueses. (Na página 2, desta série, encontram-se fotos de algum deste armamento). A 31de Março de 1965 a Frelimo recusa-se a participar numa tentativa de formação de nova identidade para gestão de todas as forças de rebeldia moçambicana, provocando o aparecimento do Coremo, resultante do reagrupamento da Udenamo com a Manu. Com o decorrer do tempo o Coreno começou a desintegrar-se devido à deserção de muitos dos seus partidários para a Frelimo, acabando por desaparecer por volta de 1971. As primeiras grandes ofensivas das forças portuguesas foram as Operação Águia e Nó Górdio, tendo por base Mueda, e que decorreram respectivamente de 2/7/1965 a 6/9/1965 e de 1/7/1970 a 6/8/1970, mas as primeiras baixas das tropas regulares portuguesas dão-se a 16/11/1964 na região de Xilama, Cabo Delgado. Em 1964 a Inglaterra concedeu a
independência à Rodésia do Norte que se passou a chamar Zâmbia e à
Niassalândia que mudou o nome para Malawi, mas recusou-se a dar a
independência à Rodésia do Sul por esta «ser tutelada por um governo
racistas minoritário de brancos que não aceitava eleições gerais com
base no princípio de um homem, um voto - one man, one vote».
Assim, a 11 de Novembro de 1965 Ian Smith declarou a
independência unilateral da Rodésia do Sul (Zimbabué), e a ONU reagiu decretando
um boicote político e sanções económicas, incluindo o embargo de
combustíveis ao novo país, levando a Inglaterra a estabelecer um
bloqueio naval ao porto da Beira para impedir a entrada de navios com
mercadoria estratégica destinadas à Rodésia. Foi um bloqueio pouco efectivo, já que o porto de Lourenço Marques
estava livre. Portugal tomou, oficialmente, uma posição neutra, mas
sub-repticiamente ajudou, tanto quanto possível, o regime de Smith, que
por seu lado ajudava o braço militar português na luta contra a Frelimo,
sobretudo na área de Tete. Um mistério por decifrar.
Foi uma luta dura, com graves excessos cometidos quer pelos militares portugueses quer pelos guerrilheiros da Frelimo. Nesta guerra o exército português chegou a recorrer a químicos fazendo pulverizações de lavras, para limitar o sustento da guerrilha como, por exemplo, o cultivo de mandioca e batata doce, e provocar a desfolha de vegetação e arvoredo, facilitando o acesso a objectivos militares, mas nunca usou tais químicos directamente contra populações. Um dos actos deploráveis imputados
ao exército português foi o massacre de Wiryamu, ocorrido a 10 de
Dezembro de 1972, no distrito de Tete. Segue-se uma transcrição de parte
de um discurso por Mário Soares feito numa conferência na Universidade
Mondlane, Maputo, em 23 de Junho de 2005: « Permitam-me que, antes,
vos diga, porém, que me sinto muito ligado a Moçambique. Talvez ainda
alguns dos presentes se lembrem do célebre "abraço de Lusaka" trocado
entre o então ainda não Presidente de Moçambique, Samora Machel e eu
próprio, ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo
português (provisório, não tinha ainda havido eleições), saído da
Revolução dos Cravos. Esse "abraço" (que ocorreu a 6 de Junho de 1974)
marcou o início das negociações - em que participei activamente - que
conduziram à independência, depois de mais de uma década de guerra, e
que se caracterizaram por uma grande cordialidade e pelo desejo mútuo de
chegarmos a um bom e rápido acordo, vantajoso para ambas as partes. Na
verdade, como a FRELIMO sempre salientou, a "guerra colonial" não foi
feita contra Portugal nem, muito menos ainda, contra o Povo Português,
mas contra a ditadura colonialista de Salazar e Caetano que nos oprimia
a ambos, portugueses e moçambicanos. Foi o que esse "abraço" simbolizou,
por forma flagrante e inesperada. Essa solidariedade, num combate comum,
vinha de longe. Não hesitei, por exemplo, quando me encontrava exilado,
em França, (1973) em me deslocar a Londres para, ao lado dos Padres
Brancos e, em especial, do Padre Hastings, denunciar publicamente o
massacre de Wiryamu, ordenado pelo comando militar português, contra
populações indefesas e inocentes moçambicanas. Não foi o único,
infelizmente, como todos sabem». ...
(Fundação Mário Soares). Ver
http://www.fmsoares.pt/arquivo_biblioteca/mariosoares/textos/007/7.pdf
. Ao contrário do que se passou com os
movimentos em S. Tomé e Príncipe, Guiné ou Angola, em que os
elementos dos movimentos nacionalistas estavam muito ligados à cultura
Portuguesa, em Moçambique grande parte dos elementos que se iriam
fundir na Frelimo, nem português falavam, e só mais tarde começou a
surgir entre eles um leque de «assimilados» e exilados.
Não só houve
elementos da Frelimo que desertaram para o lado português, como houve
militares portugueses que se passaram para o outro lado, e houve
portugueses capturados de má fé. Por exemplo, no dia 1 de Agosto de 1974, uma companhia portuguesa estacionada no
norte, em Omar, não se apercebendo das más intenções
intenções da Frelimo, aparentemente amistosas, acaba por ser capturada e é conduzida prisioneira
para a Tanzânia. |
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No entanto, não se pode dizer que os portugueses estivessem a perder a guerra em Moçambique. Pelo contrário, tinham conseguido limitar a Frelimo a fazer emboscadas, e a ataques de guerrilha no mato e em áreas isoladas que, no entanto, perturbavam seriamente a vida normal nessas zonas, mas havia uma forte suspeita que a eficácia do soldado português estava a ser sabotada por militares da alta chefia (com vista a criarem o clima de desalento necessário ao desencadear do 25 de Abril), o que criou fricções entre os colonos do interior e os militares, acusados de os não protegerem convenientemente. Em Moçambique houve mais feridos em combate e em desastres do que mortos, e muitos foram os militares portugueses que regressaram a Portugal sem nunca terem visto ou entrado em contacto com guerrilheiros da Frelimo. O primeiro Presidente da FRELIMO foi o Dr. Eduardo Chivambo Mondlane, nascido em 1920 em Gaza, educado na África do Sul e nos Estados Unidos da América, e assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 na Tanzânia, quando abriu uma encomenda postal armadilhada, enviada da República Federal da Alemanha, ignorando-se se por elementos das forças militares portugueses ou se por elementos da Frelimo, oponentes de Mondlane. |
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. Nota1: A versão mais ou menos oficial é que Mondlane teria morrido na explosão ocorrida na sede da Frelimo em Dar-es-Salaam, mas há outra versão: «... Mondlane foi de facto assassinado por um livro-bomba, mas não no seu escritório. Antes, sim, na casa/restaurante de Betty King, que era secretária da esposa da vítima, Janet Mondlane, no Instituto Moçambicano, também em Dar-es-Salaam. O local onde pereceu era predilecto do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique nas horas de lazer ...» Ver: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/eduardo_mondlan.html Nota2: Pode ler-se no site http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/025159.html:
« ... B.O.S: A PIDE
teve alguma participação no assassínio de Eduardo Mondlane?
O.C: A carta armadilhada que provocou a morte de Eduardo Mondlane foi preparada pelo Casimiro Monteiro, que era de facto um grande especialista em explosivos. Mas o Casimiro Monteiro não agiu sozinho, teve a colaboração do ... (ver referido site). Portanto, esse trabalho foi feito com a própria Frelimo, que estava muito interessada em eliminar o Mondlane...»
Samora Machel, comandante das forças militares, sucede-o, como presidente da
Frelimo e responsável pela estrutura e eficácia das suas forças
militares, com o apoio de Marcelino dos Santos e Uria Simango. |
Nota:
Mondlane erradamente aparece em vários círculos
referenciado como sendo o fundador da Frelimo. |
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Teoricamente, os actos bélicos acabam em Moçambique com
o Acordo
de Lusaka de 7 de Setembro de 1974.
À direita está um selo "pomba de
paz" comemorativo do acordo de Lusaka. |
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Este acordo origina uma revolta (7 a 17 de Setembro), em Lourenço Marques e Beira, por alguns portugueses e moçambicanos. A retaliação dos guerrilheiros da Frelimo e de seus apoiantes causou dezenas de mortes e grande destruição, gerando o pânico e o início do êxodo de milhares de residentes, para Portugal, África do Sul e Rodésia. Esta tentativa de sublevação não só não teve o apoio da maioria da tropa regular portuguesa como, a partir de 10 de Setembro, esta tropa ajuda no transporte de militares da Frelimo, para que estas possam controlar pontos estratégicos de Moçambique e repor alguma ordem. Deve notar-se que essa precária colaboração, foi feita face ao reconhecimento do Alto Comando Militar de que não havia outra solução para controlar os sérios desacatos que se desenrolavam, uma vez que estava acordado a passagem de poder para a Frelimo, incluindo o de «manter a ordem» no território. A 21 de Setembro de 1974 é então formado um Governo de Transição tendo Joaquim Chissano por Primeiro Ministro, mas um mês depois, em Lourenço Marques, elementos armados da Frelimo envolvem-se em confrontos com comandos das forças militares portuguesas, do que resultam vários mortos Este Governo de Transição conduziu os destinos de Moçambique até à sua independência a 25 de Junho de 1975.
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RENAMO
(Resistência Nacional Moçambicana) surgiu em 1976, após a
independência de Moçambique. Foi acusada de
ter sido criada pelos serviços secretos Rodesianos, e de receber apoio logístico da África do Sul, com o fim de
sabotar a Frelimo e as guerrilhas
anti-Rodesianas com bases em Moçambique. Esta acusação foi
refutada pela Renamo. A Renamo, sob chefia de Afonso Dklakama, que começara por pertencer ao exército português, depois desertou para a Frelimo e depois abandonou-a e constituiu a Renamo, combateu a Frelimo até à assinatura do Acordo Geral de Paz, Roma, em 4 de Outubro de 1992, com a comissão governamental chefiada por Armando Guebuza. Os primeiros contactos que conduziram ao acordo foram feitos em 1989 em Nairobi, seguido de um encontro secreto em Sant’Egidio em Julho de 1990. O Acordo de Paz abrange sete protocolos separados e quatro documentos correlativos, especificando a protecção dos direitos humanos básicos e das liberdades individuais e, entre outras directivas, a desmobilização dos dois exércitos (que só ficaria completa dois anos depois), com a criação de um novo exército unificado, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique. A Renamo é (ano 2005) o maior partido político da oposição. |
Samora
Moisés Machel, nascido
a 29 de Setembro de 1933, em Xilembe, província de Gaza, e sucessor de Mondlane,
foi nomeado o primeiro Presidente da
República (tendo Joaquim Chissano por Primeiro
Ministro), impondo um austero Estado Socialista de partido único, a
Frelimo, e combatendo a Renamo. Estima-se que 250 000 pessoas tenham
deixado Moçambique, por esta altura. Pouco antes da sua morte, S. Machel, confrontado com uma economia decrépita e com os efeitos devastadores da guerra civil, inicia diálogo com a R.A.S. Pelo Acordo de Nkomati, a África do sul cessa o seu apoio à Renamo, e Moçambique cessa o apoio à ANC, a guerrilha nacionalista da África do Sul, o que criou um certo mal estar no núcleo duro da Frelimo. Em 1985, um piloto militar da Frelimo, deserta para a África do Sul, levando consigo um Mig-17. (ver tópico «Aviação Militar nas Guerras coloniais) Samora Machel morreu em 19 de Outubro de 1986 quando o avião em que viajava embateu numa montanha (falha humana, técnica, ou acidente provocado?) na localidade sul-africana de Mbuzini (Mbuzine), relativamente perto da fronteira com Moçambique e Suazilândia, morrendo todos os seus tripulantes e passageiros.
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| O monumento em Mbuzini,
construído em 1999, tem na zona à frente, uma plataforma em que estão ancorados
35 tubos de aço com cerca de 9 metros de altura, com fendas, de tamanho
variado, em diferentes sítios. O vento actuando sobre eles transformam o sistema num instrumento sonoro eólico, cujo murmúrio musical depende da intensidade do vento. Por baixo da plataforma, sob os tubos, há um espaço vazio que serve de caixa de ressonância. O monumento parece ser uma enorme cunha penetrando o monte. Este memorial foi projectado por Dr. José Forjaz , um arquitecto radicado em Moçambique. (www.joseforjazarquitecto.com) |
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Act 2802090831