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Quem sou eu?
Como posso estar eu certo se, que eu saiba, não pedi para nascer, não me lembro de ter nascido, não escolhi os meus pais, nem o sítio onde nasci.
Não escolhi o meu nome,  não sei porque ando por este mundo,  ou quando ele me dirá:
«Vai-te daqui embora!» Ir-me embora?! Para onde?

 .
De onde vim, não sei,
E não sei, para onde vou!
Que bom seria saber quem sou,
Que bom seria saber que me encontrei.

Who am I?
How can I be sure if
As far as I know, I didn't ask to be born,  I don't remember being born, I didn't choose my parents, or the place where I was  born.
I didn't choose my name, I don't know  why do I wander in this world, or when it will tell me: Go away! Go away?! Where ... to?.

End of translation. In compensation I offer these verses from Andrew Marvell's  "To His Coy Mistress", written in 1681:

The grave´s a fine and private place
But none, I think do there embrace.
Now therefore, while the youthful hue
Sits on the skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport while we may;
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour,
Than languish in his slow-chapped power.

 

Ela, Eu, a Morte, e Deus
(Como Deus a criou)

Aqueles seus olhos sonhadores?
De duas das mais belas flores.
E neles, o fulgor reluzente?
Do sol, do seu brilho ardente.

E o sorriso trocista
Que salta logo à vista?
À Gioconda o roubou
E com ele a adornou!

E o cabelo turbulento,
Dançando com o vento?
De ondas dum mar profundo
Onde sonho que meus dedos afundo.

*

E o seu coração sem fel?
Duma pérola envolta em mel.
Mas, do mais que tem de belo
Nada mais revelo!

(E a mim, o que me deu Deus?)
 
Depois de tudo o que lhe ofereceu,

A mim, nada me deu!
Sou um Seu enteado
Maltrapilho enjeitado.

Um vagabundo
Perdido neste mundo.
Sem alma gémea a meu lado
Que me faça sentir amado.

Amarrado a um triste destino
Que não é fruto de meu desatino!
Fugindo a um Passado
Que me deixa amargurado

Pisando um Presente
Em que a alegria está ausente.
Entrando num Futuro
Que adivinho duro!

( À MORTE )

*

E, quando um dia a Morte
Essa dama de altivo porte
Ao meu ouvido vier sussurrar
Num tom meigo de encantar:

"Vem, aninha-te no meu seio
Pois no teu rosto leio
Que estás cansado,
E atormentado"
,

A ela vou dizer,
Com a voz a tremer:
"Tu, filha preferida de Deus,
Conheces os males meus,

Leva, pois, esta alma que se perdeu
Numa vida que a não entendeu
E que o mundo rejeitou
E só tu a desejou”.

( A  DEUS )

*

E Deus irei confrontar
E Lhe irei perguntar:
"Que mal fiz,
Para assim ser infeliz?

Antes quero morrer
Que neste inferno viver.
És dono deste universo,
Onde o Homem foi, por Ti, imerso.

O Homem, em que corpo e razão
São Tua criação.
Tu és omnipotente,
Tu és omnisciente.

Então, porque somos nós, Teus filhos,
Uns perversos andarilhos,
Espelhos dum Satanás
Que só mal faz?

**

Porque nascem crianças deficientes
Com enfermos corpos e mentes?
Ou crianças na luxúria abusadas,
Ou com bombas, destroçadas?

Porque rastejo eu num mundo
Que é cruel e imundo,
Com tanta riqueza,
Mas onde se morre de pobreza,

De mágoas e doenças,
De guerras e desavenças,
De cataclismos de estarrecer,
Onde ser devora ser?

Com tanto rosto disforme
Comido pela fome.
E tantos olhos mirrados,
Tristes, e desesperados!

Ditaste que a lei do mais forte
Dá ao mais fraco, pior sorte.
Que injustiça incrível,
Que destino terrível!

E porquê, na velha idade
Somos uns farrapos sem dignidade,
Presos num corpo que ruiu,
E em que a razão de nós fugiu?"


 
( AO HOMEM )

"Homem, quando  chegar o meu fim,
Esconde o que resta de mim.
Dá-me como alcova
Uma escura e fria cova,

E veste-me num traje de tábuas
Para que, assim, todas as mágoas
Por mim sofridas
Finalmente, sejam esquecidas!

E talvez um dia da minha campa,
Sem mármore por tampa,
As minhas vividas dores
Desabrochem em bonitas flores!"




Retalhos de versos  nascidos ao longo dos encontrões da vida.
Desenhos marcados * , inspirados em trabalhos (domínio público) de
H. R. Giger, «um génio desregrado», criador de "Allien".
Gravura marcada **, fotomontagem de 2 cartazes UNEP

 

« A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida
é o que morre dentro de nós enquanto vivemos »
(Norman Cousins, 1912-1990)

********************
O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
(Cesário Verde, em Manias)


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